Bocholt, o fim do mundo mais pra lá. 


Ainda mais em um país com tanta escassez de sol como a Alemanha, o verão é a estação do ano mais esperada. É realmente uma beleza ver os jovens se reunindo pra jogar bocha ou fazer churrasco nos parques da cidade. As pessoas aproveitam pra tirar o mofo daquela roupa de verão e as mulheres pra exibirem suas exuberantes cabeleiras embaixo dos braços.

É também nesta época que os alemães aproveitam pra viajar para os destinos mais longe da Alemanha possível. Tenho até uma teoria de que os alemães são a versão loira dos japoneses, com suas câmeras de última geração, andando em comboios guiados, com a diferença que os alemães estão sempre acompanhados de suas cervejas. A ilha espanhola Mallorca é o destino preferido, de forma que os espanhóis, que em geral não são exatamente nacionalistas, já a consideram território alemão.

Mas nenhum desses prazeres me esperava. Depois de uma longa novela pela burocracia alemã que me fez lembrar do Processo de Kafka, consegui o direito de passar meus 3 meses de férias em um laboratório de pesquisas da Siemens num vilarejo nos confins da Renânia do Norte-Vestfália. Onde? Pois é, a "Renânia do Norte-Vestfália" ou Nordrhein-Westfall é um estado da Alemanha e eu estava indo fazer um estágio em um laboratório da Siemens em Bocholt, uma cidadezinha de 50 mil habitantes quase na fronteira com a Holanda.

A cena da mudança não era nova, e se repetiria algumas tantas vezes. Estudante estrangeiro, cheio de malas dentro do trem mais barato e suando feito um porco pra levar tudo de uma plataforma pra outra.

Encontrar um lugar para morar em Bocholt também não era uma tarefa exatamente simples, mas pelo menos a Siemens conseguiu um albergue com um preço razoável para os primeiros 15 dias de minha chegada. Nesse meio tempo eu poderia encontrar algum lugar para os dois meses e meio seguintes. Lá a sensação de isolação não poderia ser maior. Sem internet, sem cozinha, sem mais ninguém no hotel, tudo que me restava era passear pela cidade. Isso, se eu fosse devagar, me tomava uma hora, o que me deixava outras 23 para ler, pensar e olhar o telhado com catavento que era a vista da minha janela.

O principal meio de transporte da cidade é a bicicleta e o único cinema da cidade (que atraia gente de toda a região) tinha quatro salas com filmes mainstream que foram vistos na primeira semana.

Como vcs podem ver, um longo periodo de retiro espiritual forçado se iniciava e, se não fosse por algumas decisões que tomei, assim teria sido o tempo todo. Na foto ao lado, a rua principal da "cidade".

Saturday, October 02, 2004


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