Crime e Castigo 

cartazBowie
Venho aqui fazer uma confissão pública. Eu cometi um crime. É verdade, saí na calada da noite premeditadamente levando comigo uma chave de fenda. Ao me aproximar da vítima, sorrateiramente desparafusei o suporte e saquei o belíssimo cartaz do show do David Bowie (esse mesmo aí do lado) que há semanas me tentava bem na porta de casa.

A única coisa que me ameniza minha culpa é que na manhã seguinte havia um novo cartaz de propaganda de cigarros, não só desonrando o suporte outrora tão bem acompanhado, como sinalizando que meu poster teria sido prontamente reciclado.

Cheguei em casa com um sorriso de prazer, fiz questão de ressaltar pro Bruno como a foto do Bowie tinha tudo de Rock n' Roll, mudando o pedal da guitarra com o pé, uma mão no braço da guitarra, a outra no microfone, na mesma que segurava a palheta na ponta dos dedos.

Depois deste breve momento de euforia, como um padre que se pega olhando pras pernas das garotas, engoli o sorriso, enrolei o cartaz e coloquei ele junto com o mapa de Berlim, o poster do Pulp Fiction, do Dogville, do cidade de Deus. Tive que enrolá-lo um pouco mais apertado para entrar dentro do do Bob Marley. Depois coloquei todos enrolados um dentro do outro de volta no saco plástico, lacrei a ponta e os mergulhei mais uma vez no canudo dos pôsteres.

Vida no exterior é assim. Tudo é pra depois, e o que é pra agora é tão temporário, que não vale a pena se apegar afetivamente. Sua casa é temporaria, a língua que você fala é temporária, seu emprego, sua conta no banco, seu número de telefone, seus amigos, tudo e todos temporários. Ok, depois você pode falar com seus amigos pelo messenger, ou em alguma ocasião muito especial receber ou fazer uma visita. Mas nunca mais será aquele seu camarada que passa junto por apuros, que cuida ou é cuidado de/por você quando está bêbado, que divide o muquifo naquela viagem pros confins da europa.

Certamente se aprende muita coisa vivendo assim, seja o de dar menos valor aos bens materiais (no semestre seguinte você não vai conseguir carregar tudo pro seu novo quarto, e acaba largando aquela luminária pra trás...), seja o de aproveitar cada minuto, de quebrar preconceitos, de viver os amigos e as situações mais intensamente.

Por outro lado, não tenha dúvida de que depois de um tempo, tudo que você quer é um prato de arroz e feijão e tomar uma Skol naquele buteco com mesa de metal. Você quer seus amigos, sua familia, quer realizar seus planos, enfim, você quer pendurar o
poster do David Bowie no seu quarto.

***

Muito bem, eu tive que contar toda essa história pra tentar explicar a alegria que é receber amigos quando se está tanto tempo fora de casa. No próximo post, a visita da Vivi e da Clau e (uma semana depois) da Nat.

Wednesday, June 23, 2004


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