Meu nome é Günther, Guinter, Guinta e Guenther
Pois é, mas diferente do trema em português que é somente mais um acento, as letras com umlaut em alemão são consideradas quase que como letras distintas (até por que alemão não tem acento). Pra dificultar, essas novas letras estranhamente tendem a ter o som mais aproximado de outra vogal que não a "umlauteada".
Ou seja, o "ü" tem o som mais parecido ao "i" do que ao "u". Por isso é que aquele jogador de futebol chamava "miler" mas escrevia "müller" (o que eu nunca entendi é o porquê deste apelido, já que o cara chama Luiz Antonio).
Da mesma forma o "ö" e o "ä" têm sons distintos do "o" e do "a", ambas tendo o som aproximado ao "e". Assim se diferencia schön com trema (=bonito) de schon sem trema (=já) sendo pronunciados aproximadamente como "chen" e "chon".
Você já deve estar percebendo onde eu quero chegar. É isso mesmo, falo sem vergonha, depois de 25 anos convivendo com meu nome vim descobrir que nunca soube pronunciá-lo corretamente. A pronúncia correta é inescrevível em português, mas o mais perto que se chega é um "Guintar".
Pois é, mas em alemão se escreve mesmo é "Günther", e como vcs podem imaginar, existem muitas situações em que nao se consegue representar os üs, äs e ös, fazendo-se necessária uma outra representação para elas.
A forma adotada foi adicionar um "e" ao lado da vogal com trema, ou seja "müller" ficaria "mueller", as toalhas dos intervalos dos trapalhões, as "büttner" ficam "buettner", e claro, Günther vira Guenther.
Pronto, solucionado o mistério do "e" que invadiu meu endereco de e-mail desde que eu cheguei na alemanha. Não é numerologia nem feitiçaria, é tecnologia ;)
Monday, May 31, 2004
Munique e o Neuschwansteinschloß

Acho que as pessoas têm três estereótipos possíveis da Alemanha. O primeiro é o dos businessmen, pessoas cosmopolitas, rígidas com as regras, extremamente pontuais e frias. Acho que este estereótipo tem mais a cara de Frankfurt, a Mannhatan alemã. O segundo eh o ligado à história, muro de Berlim, Comunismo, Nazismo, etc., obviamente ligados a Berlim. E o terceiro é o daquele barrigudo com o caneco de cerveja na mão, o símbolo da Oktoberfest de Blumenau. Aí estamos falando certamente de Munique.
Munique é a capital da bavária, o estado mais a Sudeste da Alemanha, e é a caricatura que os alemães não bávaros menos gostam de si mesmos, e a que os bávaros mais gostam. Não é em hipótese alguma estranho ir a uma reunião de trabalho na Siemens e encontrar-se um dos presentes trajando aqueles trajes típicos, aquelas bermudinhas de couro com suspensório, as Lederhosen.
Óbviamente, Munique é a capital da Cerveja, motivo pelo qual a cidade é invadida por milhões de turistas em finais de Setembro para a Oktoberfest. Isso mesmo, setembro, a Oktoberfest começa em Setembro e termina no primeiro fim de semana de Outubro. Em Munique também está a famosíssima Hofbräuhaus, a cervejaria mais tradicional da alemanha, e empresa estatal com melhor imagem do mundo (depois de alguns Maß, é claro). Mais informacoes sobre a onipresença da cerveja no post abaixo.
Meus pais tinham vindo me visitar na alemanha, e, dada a descendência austríaca de meu pai, tinha certeza que ele ia se maravilhar com a cidade. Combinamos a data e nos encontramos lá, eu vindo de Mannheim, eles de Paris. Fomos logo pro hotelzinho que eu havia reservado, e logo saímos em caminhada, indo aos pontos mais famosos, a Marienplatz e Frauenkirche. A Marienplatz é a praça central de Munique, onde estão alguns dos edifícios mais famosos, a Altesrathaus (a antiga prefeitura) e a Frauenkirche, uma igreja com duas torres gigantescas, que têm a curiosidade de aparentarem serem de tamanhos diferentes, quando na verdade -- são! Parece que o nó cego que construiu as torres fez um erro e elas tem uma diferenca de tamanho de uns 3 metros, mas que quase nao se percebe de baixo.
Mas o ponto alto mesmo de Munique esta a uma hora, na cidadezinha de Füssen, o Neuschwansteinschloß (hein?) é o "castelo da pedra no novo cisne" (eu sei, vc está rindo, mas é isto que significa, fazer o que?). O castelo mais incrível do mundo, construído no alto de uma montanha e que todo mundo ao olhar tem a impressão de que já viu esta foto em algum lugar, mas ninguém sabe onde. Talvez seja de algum quebra-cabeças, talvez seja porque ele foi a inspiração pro castelo da cinderella.
Mas o fato é que o castelo foi construído por Ludwig, um rei que teve uma misteriosa morte após ter sido afastado de suas funções por insanidade mental. Algumas más línguas afirmam que se tratou na verdade de um golpe de estado, pois o tal Ludwig só queria saber de construir castelos em homenagem a seu "amigo" Wagner, o autor de algumas das óperas mais cultuadas do mundo, em especial as "Valkírias" aquela da cena dos helicópteros no Apocalipse Now.
Mais fotos desta viagem vc encontra aqui.
Esquisitice no. 5: Transporte público
ou, cadê o cobrador??
Ah, você só pode estar brincando.. Quer dizer que não tem ninguém cobrando seu bilhete para andar de ônibus, nenhuma catraca pra andar de metrô, nada???
É a mais pura verdade. Você entra na estação do metro e vai impunemente para a plataforma. Lá em cima, na entrada da estação tem umas maquinas onde se compra o bilhete e um aparelho mais a frente onde você o valida. Mais nada.
Falô, viu, tá querendo me convencer que esses caras pagam o transporte público de boa vontade?
Er... mais ou menos, na prática, muito pouca gente compra um tíquete para cada viagem, normamente compra-se um mensal, ou semestral e não se preocupa mais com isto.
O que acontece é que entram uns fiscais disfarçados e se você não tem um tíquete validado, paga uma multa. E os disfarces são incríveis, velhinhas, jovens, tem de tudo, gente acima de qualquer suspeita que de repente sai pedindo passagens da galera. Só pra se ter uma idéia, uma passagem de metro custa uns 2 euros. Se te pegam sem, vc paga 40. E reincidindo a coisa vai ficando pior..
Ah, você só pode estar brincando.. Quer dizer que não tem ninguém cobrando seu bilhete para andar de ônibus, nenhuma catraca pra andar de metrô, nada???
É a mais pura verdade. Você entra na estação do metro e vai impunemente para a plataforma. Lá em cima, na entrada da estação tem umas maquinas onde se compra o bilhete e um aparelho mais a frente onde você o valida. Mais nada.
Falô, viu, tá querendo me convencer que esses caras pagam o transporte público de boa vontade?
Er... mais ou menos, na prática, muito pouca gente compra um tíquete para cada viagem, normamente compra-se um mensal, ou semestral e não se preocupa mais com isto.
O que acontece é que entram uns fiscais disfarçados e se você não tem um tíquete validado, paga uma multa. E os disfarces são incríveis, velhinhas, jovens, tem de tudo, gente acima de qualquer suspeita que de repente sai pedindo passagens da galera. Só pra se ter uma idéia, uma passagem de metro custa uns 2 euros. Se te pegam sem, vc paga 40. E reincidindo a coisa vai ficando pior..
Sunday, May 16, 2004
Esquisitice no. 4: Bater na mesa ao invés de aplaudir
ou lição prática de como assustar um desavisado
A aula estava chata, a sala cheia, mas por sorte estava acabando. Há que se confessar que minha primeira aula da faculdade totalmente em alemão não foi lá das mais emocionantes. Eu ainda estava meio sonolento quando ouvi o professor comentar algo sobre a semana seguinte. Foi quando tudo aconteceu. O chão parecia tremer, a mesa onde eu tinha a cabeça apoiada mais ainda, de forma que me custou alguns instantes a entender a origem daquilo, o mesmo tempo necessário para que o barulho parasse.
Não havia o que temer. Era só a aula que acabava de terminar. Após o final da aula, agradecimento e despedida do mestre, todos o "aplaudem" em sinal de respeito e reconhecimento (por pior que ela tenha sido). Mas como bater palmas seria demasiado escandaloso para um alemão, bate-se discretamente sobre a mesa, atitude que simultaneamente feita por todos os alunos assusta aos mais desprevenidos. Não acho que nenhum outro país tenha este estranho costume e já ouvi falar de palestrantes que ficaram apavorados, achando que tinham feito ou dito algo errado.
A aula estava chata, a sala cheia, mas por sorte estava acabando. Há que se confessar que minha primeira aula da faculdade totalmente em alemão não foi lá das mais emocionantes. Eu ainda estava meio sonolento quando ouvi o professor comentar algo sobre a semana seguinte. Foi quando tudo aconteceu. O chão parecia tremer, a mesa onde eu tinha a cabeça apoiada mais ainda, de forma que me custou alguns instantes a entender a origem daquilo, o mesmo tempo necessário para que o barulho parasse.
Não havia o que temer. Era só a aula que acabava de terminar. Após o final da aula, agradecimento e despedida do mestre, todos o "aplaudem" em sinal de respeito e reconhecimento (por pior que ela tenha sido). Mas como bater palmas seria demasiado escandaloso para um alemão, bate-se discretamente sobre a mesa, atitude que simultaneamente feita por todos os alunos assusta aos mais desprevenidos. Não acho que nenhum outro país tenha este estranho costume e já ouvi falar de palestrantes que ficaram apavorados, achando que tinham feito ou dito algo errado.
Esquisitice no. 3: Filmes dublados no cinema
Não tem muito o que falar, só a lamentar. Em quase toda a europa, os filmes são apresentados somente em versões dubladas. E eu não estou falando só do "Procurando Nemo" não, estou falando de todo e qualquer filme. Quando o filme é muito popular como "Matrix" ou "Senhor dos Anéis", é comum que exibam algumas poucas sessões com a versão original sem legendas. Caso contrário, esqueça.
Vocês têm noção do que é assistir "Cidade de Deus" dublado em alemão? É o fim da picada.
Vocês têm noção do que é assistir "Cidade de Deus" dublado em alemão? É o fim da picada.
Wednesday, May 05, 2004
Esquisitice no. 2: A onipresença da cerveja
Não é exagero. Não importa o quanto você acha que bebe muita cerveja, os alemães bebem mais. E em qualquer lugar, condição ou situação. Por exemplo, aquela história do Pulp Fiction de que vc pode comprar cerveja no McDonalds da França é fichinha.
Na alemanha você pode comprar cerveja no cinema (e ficar arrotando na cara do vizinho o filme inteiro, como uma senhora alemã fez comigo), você também pode encontrar cerveja no refeitório do trabalho ou no bandeijão da faculdade.
Não existe cerveja em latas menores do que meio litro, e na bavária o mais comum é pedir uma "medida" (ein Maß bitte!) de cerveja, que corresponde a um caneco de 1 litro do suco de cevada, obviamente por pessoa.
Ah! as festas da cerveja! em Munique, além da Oktoberfest há também a Frühlingsfest (a festa da primavera) e a Starkbierfest (festa da cerveja forte, aiaiai). Todas são idênticas, com um monte de gente bêbada em cima das mesas, cantando aquelas musiquinhas alemãs e agitando seus canecos no ar. O normal nestas festas é vc chegar as onze da manhã na entrada dos galpões e já ter um monte de bêbados da noite anterior dormindo na porta.
Ainda em Munique, existem as tradicionais sopa de cerveja (Biersuppe), a salsicha para comer com cerveja (Bierwurst)e o licor de cerveja(Bierlikör). Ah! é importante dizer que meio litro de cerveja no supermercado é mais barato do que meio litro de água mineral.
Se ainda não te convenci de que é exagerado o negócio, basta acrescentar que uma das principais empresas estatais de Munique é nada mais do que a Hofbräuhaus, uma das cervejarias mais tradicionais da alemanha..
Tuesday, May 04, 2004
Esquisitice no. 1: Churrasco na alemanha
Decidi escrever sobre as esquisitices alemas, e escrevi muito, entao vou dividir tudo em alguns posts para nao cansá-los.. Preparem-se, esta semana sera cheia!!
***
Esquisitice no. 1: Churrasco na alemanha
Ou a sutil diferença entre a individualidade e o individualismo
Uma característica marcante da cultura alemã certamente é a extrema consciência da diferença entre o que é público e o que é privado.
Se por um lado você nunca será perguntado por que está saindo mais cedo do trabalho (afinal a vida é SUA), por outro você nunca verá um alemão abrir uma barra de chocolate em uma roda de amigos e oferecê-la a ninguém (afinal, o chocolate é DELE)
Da mesma forma, os espaços públicos são encarados, como o nome sugere, como públicos. No verão, por exemplo, é muitíssimo comum fazer churrasco em praças, parques e espaços públicos do gênero.
Certa vez estávamos eu e o Bruno na minha cozinha em Mannheim, quando meu vizinho alemão, o Martin, nos convida para um churrasco na beira do rio Reno (Mannheim é cruzada por dois rios, o Reno, "Rhein" e o Neckar). Ele me disse que tinha combinado com uns dez amigos e que seria muito legal se nós fossemos, e que levassemos algo de beber e alguma carne.
Muito bem, saindo da faculdade, passamos num supermercado e, olhando os preços abusivos de carne e imaginando as dez pessoas que estariam lá, procuramos algo que se adequasse à situação e a nossos bolsos. Assim, optamos por uma promoção de um pacote de uns 1,5 quilos de frango, algumas latas de cerveja e nos encaminhamos ao Reno.
O dia estava muito bonito, e depois de procurar um pouco Martin e seus amigos, os encontramos, com cobertores feitos de esteira pela grama, a churrasqueira acesa e um engradado de cerveja esquentando no sol. Alguns estavam ali ao lado brincando com uma bola de futebol, outros se distraindo com um frisbee. Ou seja, tudo (fora a cerveja fora do gelo) dentro do normal. Já desistindo de procurar um isopor pra gelar a cerveja, abrimos as latas (de meio litro) quentes e tratamos de nos preocupar com a carne.
Foi somente aí que nos demos conta, que cada um dos presentes tinha trazido sua própria bandeija de carne, que já são vendidas temperadas e em porções individuais nos supermercados. Cada um punha sua carne pra assar na churrasqueira (esta sim coletiva), cuidava se estava no ponto desejado, e a comia sozinho. Hmmm... sei.. quer dizer que é cada um por si.. E QUE É QUE EU FAÇO COM 1,5 DE FRANGO!?!? SEM TEMPERO!!! Resultado, ficamos mendigando as bandeijinhas com restos de tempero dos amigos do Martin pra tentar temperar um pouco o frango. Não preciso dizer que não é coincidência que fiquei um bom tempo sem poder olhar pra cara de um frango.
***
Esquisitice no. 1: Churrasco na alemanha
Ou a sutil diferença entre a individualidade e o individualismo
Uma característica marcante da cultura alemã certamente é a extrema consciência da diferença entre o que é público e o que é privado.
Se por um lado você nunca será perguntado por que está saindo mais cedo do trabalho (afinal a vida é SUA), por outro você nunca verá um alemão abrir uma barra de chocolate em uma roda de amigos e oferecê-la a ninguém (afinal, o chocolate é DELE)
Da mesma forma, os espaços públicos são encarados, como o nome sugere, como públicos. No verão, por exemplo, é muitíssimo comum fazer churrasco em praças, parques e espaços públicos do gênero.
Certa vez estávamos eu e o Bruno na minha cozinha em Mannheim, quando meu vizinho alemão, o Martin, nos convida para um churrasco na beira do rio Reno (Mannheim é cruzada por dois rios, o Reno, "Rhein" e o Neckar). Ele me disse que tinha combinado com uns dez amigos e que seria muito legal se nós fossemos, e que levassemos algo de beber e alguma carne.
Muito bem, saindo da faculdade, passamos num supermercado e, olhando os preços abusivos de carne e imaginando as dez pessoas que estariam lá, procuramos algo que se adequasse à situação e a nossos bolsos. Assim, optamos por uma promoção de um pacote de uns 1,5 quilos de frango, algumas latas de cerveja e nos encaminhamos ao Reno.
O dia estava muito bonito, e depois de procurar um pouco Martin e seus amigos, os encontramos, com cobertores feitos de esteira pela grama, a churrasqueira acesa e um engradado de cerveja esquentando no sol. Alguns estavam ali ao lado brincando com uma bola de futebol, outros se distraindo com um frisbee. Ou seja, tudo (fora a cerveja fora do gelo) dentro do normal. Já desistindo de procurar um isopor pra gelar a cerveja, abrimos as latas (de meio litro) quentes e tratamos de nos preocupar com a carne.
Foi somente aí que nos demos conta, que cada um dos presentes tinha trazido sua própria bandeija de carne, que já são vendidas temperadas e em porções individuais nos supermercados. Cada um punha sua carne pra assar na churrasqueira (esta sim coletiva), cuidava se estava no ponto desejado, e a comia sozinho. Hmmm... sei.. quer dizer que é cada um por si.. E QUE É QUE EU FAÇO COM 1,5 DE FRANGO!?!? SEM TEMPERO!!! Resultado, ficamos mendigando as bandeijinhas com restos de tempero dos amigos do Martin pra tentar temperar um pouco o frango. Não preciso dizer que não é coincidência que fiquei um bom tempo sem poder olhar pra cara de um frango.

