Lange Nacht der Museen
Acho que depois de quase dois anos vivendo na Alemanha, já tenho autoridade suficiente para fazer algumas avaliações e comparações. E se a Alemanha tem muito que aprender conosco (por exemplo, que caipirinha NÃO é feita com açucar mascavo), em muitas coisas nós temos muito que aprender com eles. Uma delas certamente é a importância dada à cultura.
Por aqui são muito comuns as chamadas "lange nächte", ou as "longas noites", noites onde se paga um preço relativamente pequeno para se ter acesso a muitos museus, ou muitos shows de música, ou o que seja. Em Mannheim tinhamos a "longa noite dos museus", a "longa noite dos bares", aqui em Munique a "longa noite" e por aí vai. Mas a história de hoje é sobre a "Lange Nacht der Museen", a longa noite dos museus.
Eramos cinco, o Alejandro,o Bruno, a Julia (minha vizinha alemã) e sua amiga Geraldine. Nos acotovelamos no pequeno Pegeaut da Geraldine e fomos ao Alte Feuerwache (o antigo quartel dos bombeiros), ponto inicial de nossa peregrinação. Lá compramos nossos ingressos por algo como 12 euros e ganhamos uma daquelas pulseirinhas que se ganha em shows. A exposição no próprio Altefeuerwache era de fotografias. Uma parte delas era um livro com infinitas pessoas dos mais diferentes estereótipos com uma coisa em comum - todos pelados. Punks, velhos, bonitos, feios, mas todos assim nus nos davam uma certa impressão de igualdade apesar das diferenças.
Em seguida fomos à Mesquita de Mannheim. Minha primeira impressão foi a mesma, "Mesquita? e desde quando mesquita é museu?" Acontece que Mannheim, devido à grande imigração Turca, tem a maior concentração de mussulmanos (e a maior mesquita) da Alemanha e a comunidade islâmica aproveita esta festa cultural para divulgar melhor os preceitos de sua religião e da tolerância religiosa. Na entrada, todos recebem sacolinhas plásticas para que tirem os sapatos e possam levá-los consigo, e subimos as escadas acarpetadas para o salão principal do templo.
Chegando lá um senhor muito simpático, em alemão perfeito e com o dom da palavra nos dá as boas vindas e começa a apresentação para uma plateia sentada no chão e curiosíssima. Os afrescos, palavras em árabe estilizadas são traduzidas e explicadas, os principais preceitos, a questão das mulheres, tudo é explicado a maior didática e sensibilidade. Em seguida ele chama o orador para uma demonstração. Chama a atenção de como ele, sendo igual a todos perante Alá, fica na mesma altura e olha para a mesma direção que todos - Meca.
Depois de ter ganhado a simpatia de todos os presentes, cristãos ou judeus, ateus ou budistas, ele ainda convida todos a provar algumas especialidades turcas que eram vendidas a preços muito baratos na saída da mesquita. Um espetáculo de tolerância e lucidez! Ah se todos os religiosos do mundo fossem assim! A apresentação foi especialmente importante e interessante pelo aumento do preconceito ao islamismo devido à guerra do Iraque.
E muitas outras aventuras, show de dança contemporânea no museu de arte, show de salsa no museu do trabalho, e a certeza de que se todos soubessem como a cultura pode ser interessante e divertida, não existiriam pessoas em São Paulo que nunca foram a um museu, e o mundo certamente seria mais tolerante.
Friday, April 23, 2004
O Rei da Costa Rica - da Série "Grandes Figuraças"
Apesar de ainda ter muito a contar, acho que vale a pena gastar alguns posts falando um pouco das grandes figuras que acabei conhecendo por aqui, afinal situações improváveis quase sempre nos levam a conhecer pessoas improváveis.
Que seja então dado o início à série "Grandes Figuraças" com sua Majestade, o Rei da Costa Rica.
***
Ficha do Figura
Nome: Dom Alejandro Ramires
Fato que o qualifica para "Grande Figuraça": No Reveillon, em Paris, bêbado, mudou de plataforma atravessando os trilhos do metrô, pois "viu o trem vindo, e não ia dar tempo de dar a volta pelas escadas". Quase foi preso em Paris (que chique!) e lembra exatamente a cor e o cheiro da sola da bota da Polícia Francesa.
Principal Característica: Chegar um minuto antes da comida estar pronta, aceitar comer junto , comer muito e ir embora alguns segundos antes de alguém propor que ele lave a louça.
Apelidos: Nanico, Principito, Majestade, Pocahontas (nem todos são aceitos oficialmente).
Medidas: altura real: 1,54 m; altura que ele imagina que tem: 1,84 m; cintura: 110 cm; peso: 82 kilos; velocidade média para encontrar qualquer coisa no Google: 3 segundos (dependendo da conexão).
A Costa Rica é um dos países mais desenvolvidos da américa central e não deve em hipótese alguma ser confundida com a pequena ilha Porto Rico, pátria de clássicos do Trash anos 80, como os Menudos e o Locomia. O país tem uma das duas fábricas da Intel no mundo, que é reponsável por 40% do PIB do país, segundo informações da corte real.
Mas o que pouca gente sabe, é como a Costa Rica pôde conseguir este notável desenvolvimento em tão pouco tempo, destoando de toda a América Lat(r)ina.
Há pouco menos de 10 anos, a República da Costa Rica vivia uma situação calamitosa. A pobreza, o desemprego e a violência assolavam a Capital San José. A prostituição e tráfico de drogas eram a regra. Poucas pessoas viam alguma perspectiva de mudança neste pequeno país que faz fronteira com o paupérrimo Panamá ao Sul e com a Nicarágua ao Norte.
Foi quando após uma noite de bebedeira com alguns amigos, Alejandro Ramirez, herdeiro legítimo da Coroa Costaricense decidiu que acabaria de uma vez por todas com aquela situação que sua querida pátria vivia.
Valendo-se do fato de que a Costa Rica não possui exército (isto mesmo, a Força Aérea da CR que destroi a ilha do Jurassic Park não existe), Alejandro rompeu uma garrafa na mesa do bar, e junto com seus colegas invadiram o congresso e tomaram o poder. Foi um período de grande prosperidade para o pequeno recém-reinado. Estradas foram construidas, empregos gerados e a população presenteava seu rei com suas melhores virgens.
Acontece que a antiga burguesia, certamente descontente com as reformas sociais promovidas por Sua Majestade (além de algumas denúncias de irriquecimento ilícito e ligações com o jogo do bixo), organizou uma contra-revolução e Alejandro teve que fugir para o exílio na Alemanha para não ser decapitado.
Hoje, sua majestade senta a meu lado na Siemens em Munique e fala Portunhol fluente.
Que seja então dado o início à série "Grandes Figuraças" com sua Majestade, o Rei da Costa Rica.
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Ficha do Figura
Nome: Dom Alejandro Ramires
Fato que o qualifica para "Grande Figuraça": No Reveillon, em Paris, bêbado, mudou de plataforma atravessando os trilhos do metrô, pois "viu o trem vindo, e não ia dar tempo de dar a volta pelas escadas". Quase foi preso em Paris (que chique!) e lembra exatamente a cor e o cheiro da sola da bota da Polícia Francesa.
Principal Característica: Chegar um minuto antes da comida estar pronta, aceitar comer junto , comer muito e ir embora alguns segundos antes de alguém propor que ele lave a louça.
Apelidos: Nanico, Principito, Majestade, Pocahontas (nem todos são aceitos oficialmente).
Medidas: altura real: 1,54 m; altura que ele imagina que tem: 1,84 m; cintura: 110 cm; peso: 82 kilos; velocidade média para encontrar qualquer coisa no Google: 3 segundos (dependendo da conexão).
A Costa Rica é um dos países mais desenvolvidos da américa central e não deve em hipótese alguma ser confundida com a pequena ilha Porto Rico, pátria de clássicos do Trash anos 80, como os Menudos e o Locomia. O país tem uma das duas fábricas da Intel no mundo, que é reponsável por 40% do PIB do país, segundo informações da corte real.
Mas o que pouca gente sabe, é como a Costa Rica pôde conseguir este notável desenvolvimento em tão pouco tempo, destoando de toda a América Lat(r)ina.
Há pouco menos de 10 anos, a República da Costa Rica vivia uma situação calamitosa. A pobreza, o desemprego e a violência assolavam a Capital San José. A prostituição e tráfico de drogas eram a regra. Poucas pessoas viam alguma perspectiva de mudança neste pequeno país que faz fronteira com o paupérrimo Panamá ao Sul e com a Nicarágua ao Norte.
Foi quando após uma noite de bebedeira com alguns amigos, Alejandro Ramirez, herdeiro legítimo da Coroa Costaricense decidiu que acabaria de uma vez por todas com aquela situação que sua querida pátria vivia.
Valendo-se do fato de que a Costa Rica não possui exército (isto mesmo, a Força Aérea da CR que destroi a ilha do Jurassic Park não existe), Alejandro rompeu uma garrafa na mesa do bar, e junto com seus colegas invadiram o congresso e tomaram o poder. Foi um período de grande prosperidade para o pequeno recém-reinado. Estradas foram construidas, empregos gerados e a população presenteava seu rei com suas melhores virgens.
Acontece que a antiga burguesia, certamente descontente com as reformas sociais promovidas por Sua Majestade (além de algumas denúncias de irriquecimento ilícito e ligações com o jogo do bixo), organizou uma contra-revolução e Alejandro teve que fugir para o exílio na Alemanha para não ser decapitado.
Hoje, sua majestade senta a meu lado na Siemens em Munique e fala Portunhol fluente.
Friday, April 16, 2004
Paris, carnaval & Rock n' Roll
É engraçado como na Alemanha, o carnaval não é muito mais do que uma grande festa a fantasia. Não há muita espectativa, não muda a programação da TV, não se planeja viagens pra praia e não aparece mulher pelada na capa dos jornais. A única coisa em comum são as quantidades transbordantes de cerveja que se bebe.
Eu tinha chegado de Abu-Dabi fazia pouco tempo e como o carnaval era um feriado um pouco mais prolongado, decidi ir a Paris visitar meus pais e convidei o Javi ("Ravi"), um amigo sevilhano sem noção (nunca chame um sevilhano de espanhol, no máximo de andaluz). Pegaríamos o primeiro trem saindo de Mannheim as 7 da manha, sendo que na noite anterior aconteceria a festa de carnaval de Ulmenweg (lembra? o nome da moradia de estudantes, o Studentenwohnheim), e portanto dormiríamos muito pouco ou nada.
Como já estava na lama, enfiei o pé inteiro.. Marquei um aquecimento pro carnaval na minha cozinha. Sensacional! o Nacho (outro espanhol) vestido de bebê, o Javi de pistoleiro, eu de árabe (três chances pra vc adivinhar de onde consegui a fantasia) junto com um monte de amigos bebendo. Muita cerveja e vodca depois estávamos prontos pro carnaval. Atravessamos a rua e entramos na festa. Lá se via Bávaros, esquiadores e bailarinas, todos bêbados dançando e cantando (estudos recentes indicam que a quantidade mínima de álcool necessária para que um alemão se arrisque a dançar, ou qualquer coisa que se pareça com uma dança, é igual à metade do seu peso corpóreo.).
A música? Rock n'Roll!!! Já se imaginou fantasiado e bêbado no carnaval cantando "Satisfaction" ou "I love rock n'roll"? Ensaiou-se até alguma Salsa, mas o único momento que se aproximaram da música de carnaval foi quando tocou o "clássico" da lambada "..chorando estará ao lembrar de um amor que um dia não soube cuidaaaar.." aiaiai.. por sorte durou pouco, e logo já voltaram aos clássicos dos anos 80.
Muito bem, ficamos aí até umas 3 e meia da manhã, quando o nacho quis pegar sua mochila no meu quarto. Fomos pro meu quarto, e depois de pegar a mochila do nacho, olhamos pra minha cama e o javi, que tinha vindo junto, estava capotadíssimo na minha cama.
"Javi! acorda javi" - sem resposta
chacoalhamos ele, "Javi, vai dormir no seu quarto" - nada.
Resultado, tivemos eu e o Nacho que inflar um colchão inflável que estava no meu quarto porque o javi nao acordaria por nada. O Otto ficaria orgulhoso da técnica de colocar pacientes desacordados em macas (aprendida no "plantão médico") aplicada ao corpo que ali jazia e então apaguei eu.
Eu tinha colocado 3 dispertadores todos ao mesmo tempo em cantos diferentes do quarto. um ao lado da cama, o rádio no último volume e o celular, perto da janela. Para chegar na estação de trem, nos tardaria algo como 20 minutos, e eu ainda tinha que tomar um banho e fechar a mochila.
A cena impagável. 5h30 da manhã toca tudo-ao-mesmo-tempo-agora e eu, num susto só desligo os três despertadores e me deito na cama, palpitante, tentando me recuperar... lógicamente peguei de novo no sono. O javi nem se deu conta.
"Putaqueopariu!! Javi! acorda! fudeu!" -aí ele acordou
- que? que?
- são 6h50! perdemos o trem!
- putz.. que fazemos?
- seilá, pegar o próximo? mas que horas?
- eu vou pegar minha mochila, a gente se encontra no ponto do ônibus.
Mesmo sendo impossível (tinhamos 10 minutos pra chegar), tentamos ir nem que fosse pra ver o horário e voltar pra dormir.
Fomos correndo o máximo que podíamos, pedindo carona pra quem estivesse de carro no meio da rua, entramos no Strassenbahn (o bondinho) e fomos à Bahnhof (estação de trem). Chegamos lá umas 7h20 já totalmente desanimados, quando olhamos no placar dos trens.....EC85... destino Paris... 20 MINUTOS ATRASADO!!!!!!!! Correria na escadaria pra chegar na platafoma, desce escadada, "qual a plataforma?", "oito!" sobe escada, e chegamos na plataforma junto com o trem.
Outra cena impagável! dois doidos pulando e comemorando igual a torcedor de estádio quando seu time marca, ao lado de um monte de japoneses com cara de sono e pouco contentes com o atraso do trem.
Wednesday, April 07, 2004
Abu-Dhabi, ou lição prática de como quebrar a rotina (parte II)
Só pra reforçar, eu pretendo realmente cumprir a promessa de pelo menos semanalmente atualizar este site. Leia! Comente! Pergunte! Critique!
Sua opinião é muito importante para nós. ;)
*****
Ao chegar em Abu-Dhabi (como é que se escreve isto?) muitas horas de viagem depois, eu já estava totalmente low-batt, mas feliz de encontrar um chuveiro e algum lugar pra dormir. Me registrei no hotel, onde incrivelmente os estudantes que estavam organizando o evento me esperavam, e me encaminhei para meu quarto. Ao entrar, tive que tirar todas as coisas do meu colega de quarto de cima da minha cama. No outro dia fui descobrir que ele era gente boníssima, era da Austrália, chamava Phillip e que já tinha chegado havia uma semana.
No outro dia cedíssimo me arrastei pro lugar onde seria servido o café da manhã. O Hotel era um desbunde! Para chegar no hotel, que ficava em um mesanino à beira de um jardim interno, passei por alguns chafarizes e corredores largos forrados a marmore. Estudantes de todo o mundo (mais de 50 países, segundo dados oficiais) se encontravam aí supostamente para debater os rumos da educação e a tecnologia. Entre frutas, frios, cereais com mel e suco de melancia fui conhecendo algumas pessoas interessantes até irmos todos pra sala de convenções (também do hotel).
Começa o evento. Um pequeno teatro sincronizado com um filme no telão, mostra um garoto caminhando pelo deserto e recebendo ensinamentos de seu mestre, aplicando-os em sua comunidade, passando pelas evoluções tecnológicas e terminando com o logotipo do evento e fogos de artifício saindo das bordas to telão (!!) Tudo isso dentro do anfiteatro! Nooossa!! Esse evento vai ser muito animal!!
Encerrado o show pirotécnico, é anunciada a entrada do xeque (ou seria Sheike?) e imediatamente todos se levantam em respeito. Assim que ele toma o assento, os mais de 250 participantes se sentam. Depois dos salamaleques (literalmente), ele passa para o inglês e nos dá as boas vindas, fala da importância da educação como elemento transformador da sociedade, e da tecnologia como fator catalizador e não como fator limitante. Ele era o homem que estava pagando tudo, e eu estava com espectativas altíssimas para o evento.
Aos poucos, ao longo dos 4 dias, fui percebendo que eu não podia estar mais errado. As palestras dos convidados (a maioria estadunidenses) foram muito lúdicas mas quando não totalmente vazias, tratavam a educação como uma franquia do McDonald's e, portanto, totalmente opostas ao que apontava o evento (e ao que eu acreditava ser a educação).
As apresentações dos alunos, que haviam sido selecionados entre mais de mil propostas, não tinham nenhum conteúdo, nenhuma idéia nova, nenhuma visão diferente, nada. Absolutamente nada de interessante. E quando eu digo nada, é nada mesmo. Bom, acho que vcs entenderam a idéia.
Desta forma, só me resta falar da excursão que o xeque pagou pra galera.
Acho que já era o último dia, e fomos apanhados por umas 10 vans, pois iriamos em excursão ao deserto. Divertidíssimo, todos na mesma vã, o japonês de cabelo espetado, o árabe de roupa típica, a alemã de bochechas vermelhas, o brasileiro legal, bonito e inteligente (eu, claro, hehehe).
Hora e pouco em direção ao deserto e somos recebidos por uma banda de beduinos, tocando tambores. Abandonamos os carros e os seguimos até um acampamento uns 400 metros pra dentro do deserto. Imagine a cena. Uns 200 gringos andando circundados por camelos, beduinos tocando tambor e dunas gigantescas. Está imaginando? então agora imagine vc subindo uma duna e ver aparecer do outro lado da duna um acampamento gigantesco em forma de "U" com camelos pra galera andar, artesãs e beduinos de verdade... Mas não para por aí. Ao entrarmos no acampamento, nos davam roupas típicas e as mulheres ganhavam uma pintura de Henna nas mãos (como na foto).
Não preciso dizer que foi tudo muito incrível, depois de subir em uma duna da altura de um predio de 5 andares e ver o pôr-do-sol, desci de volta ao acampamento onde fumei um narguilé com meus colegas dos emirados árabes. Andei de camelo e logo nos serviram o jantar. Depois de um pouco de estranhamento, bandeijas grandes com arroz e alguns pedaços de carne e outras coisas não identificáveis foram comidos com as mãos por suissos e bangladeshianos, palestinos e americanos.
Mais tarde se soube que se tratavam de carne e cérebro de camelo, a comida perfeita para a união dos povos. Além de ser uma delícia, é claro.
Sua opinião é muito importante para nós. ;)
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Ao chegar em Abu-Dhabi (como é que se escreve isto?) muitas horas de viagem depois, eu já estava totalmente low-batt, mas feliz de encontrar um chuveiro e algum lugar pra dormir. Me registrei no hotel, onde incrivelmente os estudantes que estavam organizando o evento me esperavam, e me encaminhei para meu quarto. Ao entrar, tive que tirar todas as coisas do meu colega de quarto de cima da minha cama. No outro dia fui descobrir que ele era gente boníssima, era da Austrália, chamava Phillip e que já tinha chegado havia uma semana.
No outro dia cedíssimo me arrastei pro lugar onde seria servido o café da manhã. O Hotel era um desbunde! Para chegar no hotel, que ficava em um mesanino à beira de um jardim interno, passei por alguns chafarizes e corredores largos forrados a marmore. Estudantes de todo o mundo (mais de 50 países, segundo dados oficiais) se encontravam aí supostamente para debater os rumos da educação e a tecnologia. Entre frutas, frios, cereais com mel e suco de melancia fui conhecendo algumas pessoas interessantes até irmos todos pra sala de convenções (também do hotel).
Começa o evento. Um pequeno teatro sincronizado com um filme no telão, mostra um garoto caminhando pelo deserto e recebendo ensinamentos de seu mestre, aplicando-os em sua comunidade, passando pelas evoluções tecnológicas e terminando com o logotipo do evento e fogos de artifício saindo das bordas to telão (!!) Tudo isso dentro do anfiteatro! Nooossa!! Esse evento vai ser muito animal!!
Encerrado o show pirotécnico, é anunciada a entrada do xeque (ou seria Sheike?) e imediatamente todos se levantam em respeito. Assim que ele toma o assento, os mais de 250 participantes se sentam. Depois dos salamaleques (literalmente), ele passa para o inglês e nos dá as boas vindas, fala da importância da educação como elemento transformador da sociedade, e da tecnologia como fator catalizador e não como fator limitante. Ele era o homem que estava pagando tudo, e eu estava com espectativas altíssimas para o evento.
Aos poucos, ao longo dos 4 dias, fui percebendo que eu não podia estar mais errado. As palestras dos convidados (a maioria estadunidenses) foram muito lúdicas mas quando não totalmente vazias, tratavam a educação como uma franquia do McDonald's e, portanto, totalmente opostas ao que apontava o evento (e ao que eu acreditava ser a educação).
As apresentações dos alunos, que haviam sido selecionados entre mais de mil propostas, não tinham nenhum conteúdo, nenhuma idéia nova, nenhuma visão diferente, nada. Absolutamente nada de interessante. E quando eu digo nada, é nada mesmo. Bom, acho que vcs entenderam a idéia.
Desta forma, só me resta falar da excursão que o xeque pagou pra galera.
Acho que já era o último dia, e fomos apanhados por umas 10 vans, pois iriamos em excursão ao deserto. Divertidíssimo, todos na mesma vã, o japonês de cabelo espetado, o árabe de roupa típica, a alemã de bochechas vermelhas, o brasileiro legal, bonito e inteligente (eu, claro, hehehe).
Hora e pouco em direção ao deserto e somos recebidos por uma banda de beduinos, tocando tambores. Abandonamos os carros e os seguimos até um acampamento uns 400 metros pra dentro do deserto. Imagine a cena. Uns 200 gringos andando circundados por camelos, beduinos tocando tambor e dunas gigantescas. Está imaginando? então agora imagine vc subindo uma duna e ver aparecer do outro lado da duna um acampamento gigantesco em forma de "U" com camelos pra galera andar, artesãs e beduinos de verdade... Mas não para por aí. Ao entrarmos no acampamento, nos davam roupas típicas e as mulheres ganhavam uma pintura de Henna nas mãos (como na foto).
Não preciso dizer que foi tudo muito incrível, depois de subir em uma duna da altura de um predio de 5 andares e ver o pôr-do-sol, desci de volta ao acampamento onde fumei um narguilé com meus colegas dos emirados árabes. Andei de camelo e logo nos serviram o jantar. Depois de um pouco de estranhamento, bandeijas grandes com arroz e alguns pedaços de carne e outras coisas não identificáveis foram comidos com as mãos por suissos e bangladeshianos, palestinos e americanos.
Mais tarde se soube que se tratavam de carne e cérebro de camelo, a comida perfeita para a união dos povos. Além de ser uma delícia, é claro.

