Abu-Dhabi, ou lição prática de como quebrar a rotina (parte I)
Não se perca, estamos em finais de fevereiro/O3. O final de ano de 2002 tinha sido certamente muito mais interessante que o deprimente começo de 2003. É que passadas as férias, o que restava era o frio, a neve e dias cinzentos e curtíssimos (4h30 já escurecendo). Os amigos daqui estavam na maior parte em seus países de origem, e os do Brasil, estavam na praia me torturando de saudades.
Um truque que logo se aprende quando se vive sozinho longe de casa é o de buscar desesperadamente uma rotina, algo que ocupe a mente e te faça pensar menos.
Pois bem, estava eu no "sempre em frente, não temos tempo a perder...", quando me chega um e-mail da responsável pelas bolsas da Siemens aqui na Alemanha (como a bolsa que recebo). O e-mail era um convite para um evento que aconteceria nos Emirados Árabes Unidos, na cidade de Abu-Dhabi. Chamava-se "e-ducation without borders 2003", e era um evento que supostamente trataria de e-education, ou seja, de educação à distância, ou de educação com a ajuda da Internet.
O evento era totalmente patrocinado por um dos Sheiks dos EAU, e quando eu digo totalmente, significa inscrição, estadia, comida, enfim, tudo. E tudo bancado pelos petrodólares.
Para participar do evento, bastaria que o interessado pagasse a passagem a Abu-Dhabi. Como se nao bastasse, a Siemens estava se propondo a pagar a passagem de dois de seus bolsistas para que participassem do evento. Interessados deveriam responder ao e-mail dela.
Não é preciso dizer que mais do que imediatamente respondi o e-mail, enumerando os motivos pelos quais eu era o merecedor da passagem, nem ligando para o fato de que os noticiários estavam totalmente ocupados com uma iminente guerra no Iraque afinal, a distancia de Bagdá a Abu-dhabi é quase a mesma Bagdá-Viena, e ninguém achava perigoso ir a Viena.
O resultado veio em alguns dias, eu nao tinha sido um dos dois escolhidos, mas a Siemens negociou com os organizadores do evento, e fui a Abu-Dhabi a convite do Sheik. Isso mesmo, não só a inscrição, a estadia e a comida, mas também a passagem foi comprada pelos organizadores para mim. Me ligaram dos EAU perguntando se eu me importava de retirar a passagem diretamente no aeroporto e qual a companhia de minha preferência eu ainda com certa afixia, "I think Lufthansa is OK.."
chegando no aeroporto, ao retirara a passagem, uma cena pouco comum. A passagem estava lá em meu nome, conforme esperado. Retirei-a e já ia indo pro portão de embarque, quando notei que o destino era.. Dubai!?!? Voltei para o balcão da Lufthansa.
"Por favor, só uma pergunta rápida, meu vôo para Abu-Dhabi faz escala em Dubai?"
"Senhor, seu vôo é para Dubai", respondeu a funcionária, já com cara de "aiaiai tá tudo errado"
ai respondi, "Ah, Dubai, claro. Ok, obrigado.", e saí deixando a menina com a sensação daquele anúncio da Amex, "Paris, hoje? Ok."
Mas o fato, é que o vôo foi tenso. Fui tentando imaginar para quem nos Emirados Árabes eu ligaria numa sexta-feira as 11 da noite, para ir me buscar no aeroporto de Dubai. Só relaxei de fato quando, já no luxuosíssimo aeroporto de Dubai encontrei uma garota da Indonésia segurando uma plaquinha com uma lista enorme de nomes, entre os quais, o meu.
"O Sr. é o Sr. Mittermayer? Por favor, me acompanhe" E junto com outros dois perdidos fomos pegar as malas e em seguida encaminhados para a saída do aeroporto. Lá um motorista indiano me aguardava, com o qual percorri os mais de 500 kms entre as duas cidades a 200 km/h em uma mercedes preta. Não tive medo nem por um instante, pois estava certo que meu destino nao era morrer em um acidente de carro de madrugada no meio de um deserto nos Emirados Árabes. E mesmo que fosse, teria lá um certo glamour. (continua no próximo post)

