Berlim I - a ida
Sentamos os chicos todos para discutir a viagem de fim de ano. Éramos cinco confirmados, eu, Alejandro (o rei da costa rica), Ana maria (tb da CR), Felix (Sevilhano) e o Juliano de Floripa. Entramos na internet e começamos a estudar as possibilidades, Paris.. muito caro, Londres, nem me diga!! Praga... hmm interessante, ih, mas precisa de visto.. Até que por fim fizemos o plano Topa-tudo-sem-dinheiro: Berlim.
Iríamos com o imbatível Schones Wochenende, um ticket de trem que custa 28 euros e vc pode ir com os trens regionais até onde queira dentro da alemanha com 5 pessoas! sensacional! uma passagem q custa uns 70 euros sai por 6~7!!! Albergue esquema o mais barato possível e passariamos a semana do Natal na capital Alemã.
Alguns dias depois encaramos as 6 trocas de trem e mais de 10 horas de viagem, depois das quais chegamos quebradíssimos, mas ainda vivos, nesta que é a cidade mais simbólica da história contemporânea.
Confesso que tinha um pouco de medo do que ia encontrar, afinal a expectativa era tanta que corria o risco de ver minha imaginação sobrepor a realidade e assim não encontrar tudo aquilo que se espera de uma cidade violentada pelas potências durante quase um século. Isso sem se mencionar que aqui viveu o dramaturgo Bertold Brecht, houve uma filial da mais influente escola de arquitetura, a Bauhaus, foi a capital do império nazista, palco do Christiane F., moradia de Bowie e Iggy Pop, e tantas outras coisas.
Mas quando chegamos no albergue e ví a Torre de TV da Alexanderplatz, principal símbolo da Berlim Oriental e, consequentemente da unificação alemã, comecei a notar que há muito mais entre a Alexandertz e a Potzdamerplatz do que julgava minha vã filosofia.
Aproveitamos a fria noite de Berlim para ir até a famosa Torre, mas voltamos cedo, devido ao efeito kriptônico do tal Schones Wochenende... Ainda tive forças para, apesar do cansaço, já na cama esboçar um último sorriso de alegria incontida -- Que animal! estou em Berlim! e dormi como uma pedra do Muro.
(to be continued...)
Friday, October 24, 2003
Tudo de Bonn
Olá! desculpem a curta ausência, mas estive de férias nas últimas semanas, o que significa na prática, manter uma certa distância de segurança da internet.. Mas vamos lá, dando proseguimento:
***
(foto dir. A caminho de Bonn: Jucas, Otávio, Verô, Edras, Brunão e eu)
Tudo aconteceu há exatamente um ano.
Eu ainda estava há pouco tempo em Mannheim, já havia superado algumas dificuldades iniciais, me acostumado à vida no WG (Wohngemeischaft - Wohn="moradia" Gemeinschaft="comunidade") e já tinha realizado os 12 trabalhos da burocracia Fachhochschuliana (lembra? Fachhochschule ou FH é a faculdade...), quando recebi um e-mail da Frau Messele, uma alemã que trabalha no serviço para estrangeiros da FH que fala português e adora o Brasil, "Olá galera, acho que isso vai interessar a vocês, beijinhos, Sandra".
Tratava-se de um e-mail convite para um seminario que aconteceria em Bonn somente para brasileiros, com o intuíto de se conseguir informações e trocar ideias sobre como voltar ao brasil e se reinserir na sociedade, e o que era mais importante, eles pagavam tudo, a passagem de trem, a estadia, a comida, tudo. Lógico (principalmente pelo último fator) que nos cadastramos imediatamente!
Ok, eu assumo, fomos pela boca-livre, mas me lembro que fiquei pensando sobre essa história de readaptação ao brasil, que a princípio me soou um pouco estranha e banal, "Que tipo de dificuldades se pode ter? Difícil é sair do brasil e não voltar!". Mas, como no próprio seminário eu iria descobrir, depois de alguns anos fora, tudo pode ser muito mais difícil do que parece; reconhecimento de diplomas, conseguir emprego, se acertar com a receita, levar a mudança, isso só pra citar o plano prático, sem tocar no não menos delicado o choque cultural (como tanto teme meu broder P.Mindlin). É isso mesmo, choque cultural, a cara das pessoas quando vc volta depois de um tempo fora, não saber de que estão falando quando fazem alguma piadinha com a personagem da novela, essas coisas...
Mas voltano ao seminário, ele acabou sendo muito bacana, conhecemos uma quantidade incrível de brasileiro(a)s, em especial a Larissa (que visitaríamos mais tarde), ouvimos muitas coisas que fizeram sentido, outras que não, e além de tudo isso, tivemos um tempo para conhecer Bonn.
Bonn, além de ter sido a capital da alemanha ocidental durante os anos de guerra fria, é onde nasceu ninguém menos que Beethoven. Estando lá, é impossível se alienar a este fato, a cidade por pouco não se confunde com um parque temático do ilustre filho. Estátua, monumento, casa do beethoven, tudo parece girar em torno dele. O nome da sala de concertos? Beethovenhalle, claro.
Isto é uma coisa que me impressiona muito na europa e que poucas vezes tive a chance de sentir no brasil, é vc visitar um museu e ver a nona sinfonia manuscrita, no original! É vc ver o primeiro cravo (uma espécie de órgão), com o qual um dos maiores gênios da humanidade aprendeu música. É uma sensação de se estar entrando em um lugar sagrado, de se estar voltando no tempo e se sentando por alguns instantes ao lado do moleque cabeludo tentando aprender como funciona esta ferramenta com a qual iria revolucionar o planeta alguns anos depois. Além da admiração que tenho pelo homem, sou um fã do livro/filme laranja mecânica, e como não me sentir admirado em estar visitando a casa do bom e velho Ludwig, último refúgio de humanidade de Alex, a personagem principal do livro/filme.
Claro que depois disso vc entra na loja de souvenirs e logo se lembra que está no século 21, a canetinha com a cara do Ludwig? 5 euros, camiseta? 15, busto pra colocar em cima do piano igual o Linus fazia com o Schubert? 30 euros...
Foi meio corrido para conhecer tudo de Bonn (desculpe o trocadalho), mas tivemos tempo de ir ao museu da alemanha ocidental, onde se via coisas que achei interessantíssimas, como cartazes originais de divulgação do plano Marshall (plano de reconstrução da europa com dinheiro ianque), e muitas coisas relacionadas à guerra fria. Muito legal! Mas guerra fria mesmo, há que se ir a berlim... Mas isso é o próximo post.
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(foto dir. A caminho de Bonn: Jucas, Otávio, Verô, Edras, Brunão e eu)
Tudo aconteceu há exatamente um ano.
Eu ainda estava há pouco tempo em Mannheim, já havia superado algumas dificuldades iniciais, me acostumado à vida no WG (Wohngemeischaft - Wohn="moradia" Gemeinschaft="comunidade") e já tinha realizado os 12 trabalhos da burocracia Fachhochschuliana (lembra? Fachhochschule ou FH é a faculdade...), quando recebi um e-mail da Frau Messele, uma alemã que trabalha no serviço para estrangeiros da FH que fala português e adora o Brasil, "Olá galera, acho que isso vai interessar a vocês, beijinhos, Sandra".
Tratava-se de um e-mail convite para um seminario que aconteceria em Bonn somente para brasileiros, com o intuíto de se conseguir informações e trocar ideias sobre como voltar ao brasil e se reinserir na sociedade, e o que era mais importante, eles pagavam tudo, a passagem de trem, a estadia, a comida, tudo. Lógico (principalmente pelo último fator) que nos cadastramos imediatamente!
Ok, eu assumo, fomos pela boca-livre, mas me lembro que fiquei pensando sobre essa história de readaptação ao brasil, que a princípio me soou um pouco estranha e banal, "Que tipo de dificuldades se pode ter? Difícil é sair do brasil e não voltar!". Mas, como no próprio seminário eu iria descobrir, depois de alguns anos fora, tudo pode ser muito mais difícil do que parece; reconhecimento de diplomas, conseguir emprego, se acertar com a receita, levar a mudança, isso só pra citar o plano prático, sem tocar no não menos delicado o choque cultural (como tanto teme meu broder P.Mindlin). É isso mesmo, choque cultural, a cara das pessoas quando vc volta depois de um tempo fora, não saber de que estão falando quando fazem alguma piadinha com a personagem da novela, essas coisas...
Mas voltano ao seminário, ele acabou sendo muito bacana, conhecemos uma quantidade incrível de brasileiro(a)s, em especial a Larissa (que visitaríamos mais tarde), ouvimos muitas coisas que fizeram sentido, outras que não, e além de tudo isso, tivemos um tempo para conhecer Bonn.
Bonn, além de ter sido a capital da alemanha ocidental durante os anos de guerra fria, é onde nasceu ninguém menos que Beethoven. Estando lá, é impossível se alienar a este fato, a cidade por pouco não se confunde com um parque temático do ilustre filho. Estátua, monumento, casa do beethoven, tudo parece girar em torno dele. O nome da sala de concertos? Beethovenhalle, claro.
Isto é uma coisa que me impressiona muito na europa e que poucas vezes tive a chance de sentir no brasil, é vc visitar um museu e ver a nona sinfonia manuscrita, no original! É vc ver o primeiro cravo (uma espécie de órgão), com o qual um dos maiores gênios da humanidade aprendeu música. É uma sensação de se estar entrando em um lugar sagrado, de se estar voltando no tempo e se sentando por alguns instantes ao lado do moleque cabeludo tentando aprender como funciona esta ferramenta com a qual iria revolucionar o planeta alguns anos depois. Além da admiração que tenho pelo homem, sou um fã do livro/filme laranja mecânica, e como não me sentir admirado em estar visitando a casa do bom e velho Ludwig, último refúgio de humanidade de Alex, a personagem principal do livro/filme.
Claro que depois disso vc entra na loja de souvenirs e logo se lembra que está no século 21, a canetinha com a cara do Ludwig? 5 euros, camiseta? 15, busto pra colocar em cima do piano igual o Linus fazia com o Schubert? 30 euros...
Foi meio corrido para conhecer tudo de Bonn (desculpe o trocadalho), mas tivemos tempo de ir ao museu da alemanha ocidental, onde se via coisas que achei interessantíssimas, como cartazes originais de divulgação do plano Marshall (plano de reconstrução da europa com dinheiro ianque), e muitas coisas relacionadas à guerra fria. Muito legal! Mas guerra fria mesmo, há que se ir a berlim... Mas isso é o próximo post.
Tuesday, October 14, 2003
Ulmenweg
Como meu quarto estaria disponível a partir de segunda feira e eu havia chegado no sábado, achei que seria uma boa idéia falar com o Hausmeister (zelador) para ver se havia possibilidade de eu me mudar um dia antes. Claro que eu já tinha tido esta idéia ainda na França, e de lá havia ligado para tentar descobrir se era possível.
- Por favor, eu gostar de saber...
- Um momento - demora-se alguns segundos - sim ?
- Por favor, eu gostar de saber se eu pode sacar os chaves domingo... (meu alemão devia soar assim)
- Was ist ihren Zimmernummer? (nummer... humm.. número.. número do quarto!)
- Zimmer 70, não! Zimmer 17 Haus 4 (Zimmer=quarto, Haus.. ah essa é fácil, vai...)
- Hmmm...Entschuldigung, ihr Zimmer ist bis Sonntag besetzt. (só entendi o Entshuldigung = desculpe)
- Ahhh.. ok.. Danke - e desliguei.
E minha mãe toda orgulhosa do filho que fala alemão,
- E aí, pode ou não pode?
- Não sei.. não entendi nada, acho que não pode..
Lamentável.. vou ter que apelar. Ligo de novo, desta vez em inglês, e tudo se resolve, o quarto estava ocupado até domingo e portanto eu só podia mesmo mudar na Segunda.
(esq.) Foto do Studentenwohnheim "Ulmenweg" (dir.) Foto do meu quarto
O Studentenwohnheim (moradia de estudantes) ficava na rua Ulmenweg, o caminho dos ulmeiros (quê? não sabe o que é um ulmeiro?? Pô! vc não fala português não?) e era composto por 7 prédios com um monte de quartos por prédio. Os quartos não tinham todos o mesmo tamanho, nem se distribuiam da mesma maneira. Mas no meu caso, era um quarto não muito grande, e eu dividia a área comum (cozinha-sala, banheiros, chuveiro) com outras 4 pessoas, quer dizer seriam quatro pessoas, porque as aulas só começariam em uma semana, e não tinha ninguém por lá ainda.
Mas meus vizinhos acabaram chegando, 3 alemães e uma polonesa. O da direita é o Martin, de Berlin e muitíssimo gente boa, viciado em Austrália, me contou que tinha tido um rolo com uma brasileira, quando esteve na austrália, mas que não entendeu nada, "ela me beijou uma noite, e no outro dia não éramos namorados...".
No final do corredor vivia o Thomas, um cabeludo metaleiro que, quando me comprimentou veio perguntar se eu conhecia o Sepultura e o Soulfly (a banda do ex-sepultura Max Cavallera); eu o vi raras vezes, somente quando tinha algum jogo de futebol importante, o encontrava na cozinha cercado de cerveja e homens.
O cara do quarto da esquerda é um cara de nome impronunciável com comportamento vampirístico, só se ve sua sombra passando do banheiro para o quarto e raramente fala com alguém. Nunca cozinha nada, o que por um lado é bom, pois a geladeira é meio pequena para cinco pessoas.
E tinha a Gosia (pronuncia-se Gosha), minha vizinha polonesa de escorpião que troca de namorado como quem troca de roupa. Não preciso dizer que os dois com quem tenho mais contato e amizade são o Martin e a Gosia.
Na própria moradia, na casa ao lado da minha, há um barzinho conversível em discoteca onde rolam todas as festas da moradia, e onde toda quarta e domingo se bate o ponto, ao menos para falar oi pra galera e tomar uma cerveja, é o Thekenabend. Algumas fotos podem ser vistas no album de fotos. Alí em cima, à direita, na sessão de links, alí ó...
- Por favor, eu gostar de saber...
- Um momento - demora-se alguns segundos - sim ?
- Por favor, eu gostar de saber se eu pode sacar os chaves domingo... (meu alemão devia soar assim)
- Was ist ihren Zimmernummer? (nummer... humm.. número.. número do quarto!)
- Zimmer 70, não! Zimmer 17 Haus 4 (Zimmer=quarto, Haus.. ah essa é fácil, vai...)
- Hmmm...Entschuldigung, ihr Zimmer ist bis Sonntag besetzt. (só entendi o Entshuldigung = desculpe)
- Ahhh.. ok.. Danke - e desliguei.
E minha mãe toda orgulhosa do filho que fala alemão,
- E aí, pode ou não pode?
- Não sei.. não entendi nada, acho que não pode..
Lamentável.. vou ter que apelar. Ligo de novo, desta vez em inglês, e tudo se resolve, o quarto estava ocupado até domingo e portanto eu só podia mesmo mudar na Segunda.
(esq.) Foto do Studentenwohnheim "Ulmenweg" (dir.) Foto do meu quarto
O Studentenwohnheim (moradia de estudantes) ficava na rua Ulmenweg, o caminho dos ulmeiros (quê? não sabe o que é um ulmeiro?? Pô! vc não fala português não?) e era composto por 7 prédios com um monte de quartos por prédio. Os quartos não tinham todos o mesmo tamanho, nem se distribuiam da mesma maneira. Mas no meu caso, era um quarto não muito grande, e eu dividia a área comum (cozinha-sala, banheiros, chuveiro) com outras 4 pessoas, quer dizer seriam quatro pessoas, porque as aulas só começariam em uma semana, e não tinha ninguém por lá ainda.
Mas meus vizinhos acabaram chegando, 3 alemães e uma polonesa. O da direita é o Martin, de Berlin e muitíssimo gente boa, viciado em Austrália, me contou que tinha tido um rolo com uma brasileira, quando esteve na austrália, mas que não entendeu nada, "ela me beijou uma noite, e no outro dia não éramos namorados...".
No final do corredor vivia o Thomas, um cabeludo metaleiro que, quando me comprimentou veio perguntar se eu conhecia o Sepultura e o Soulfly (a banda do ex-sepultura Max Cavallera); eu o vi raras vezes, somente quando tinha algum jogo de futebol importante, o encontrava na cozinha cercado de cerveja e homens.
O cara do quarto da esquerda é um cara de nome impronunciável com comportamento vampirístico, só se ve sua sombra passando do banheiro para o quarto e raramente fala com alguém. Nunca cozinha nada, o que por um lado é bom, pois a geladeira é meio pequena para cinco pessoas.
E tinha a Gosia (pronuncia-se Gosha), minha vizinha polonesa de escorpião que troca de namorado como quem troca de roupa. Não preciso dizer que os dois com quem tenho mais contato e amizade são o Martin e a Gosia.
Na própria moradia, na casa ao lado da minha, há um barzinho conversível em discoteca onde rolam todas as festas da moradia, e onde toda quarta e domingo se bate o ponto, ao menos para falar oi pra galera e tomar uma cerveja, é o Thekenabend. Algumas fotos podem ser vistas no album de fotos. Alí em cima, à direita, na sessão de links, alí ó...

