Aprendendo um novo idioma 

Primeira aula de alemão, todos um pouco apreensivos, tentando se sentir um pouco a vontade. Era uma turma não muito grande, com uns 15 alunos, dos quais eu e o Juliano (de Floripa) éramos brasileiros (o Edras, de Curitiba, viria um mês depois) e todos os outros eram hispano-hablantes (Espanha, Costa Rica, Argentina, Equador). Aparentemente, as turmas de alemão haviam sido divididas por nacionalidade, para "facilitar o aprendizado", agrupando os hispano e luso falantes na mesma turma, incluindo a própria professora Yolanda, que era madrilenha.

Para meu espanto, a mesma Yolanda que me esplicara os procedimentos burocráticos pausada e claramente, buscando as palavras em seu português com leve acento lusitano, agora nos metralhava em espanhol, em velocidades só comparáveis ao Joe empolgado (quem o conhece, entendeu a comparação). Eu e o Juliano, franzí­amos as sombrancelhas, forçavamos a audição, tudo em uma tentativa vã de compreender a avalanche de informações em espanhol, de forma que eram quase um alívio os raros momentos em que se escutava o alemão, na classe de.. err.. Alemão.

Mas, bem ou mal, sobrevivemos à primeira aula e, mapinhas do S-Bahn (os bondinhos, lembra?) na mão, partíamos na expedição de voltar para a moradia. Como muitos ainda não haviam cumprido os protocolos burocráticos de Mannheim, acabei voltando sozinho neste dia para casa.

Depois de ir ao estranho supermercado (com pouca ênfase no "super"), de ter descoberto que não lhe dão sacolas pra levar as compras pra casa (são anti-ecológicas), encontrei no caminho dois caras que eu me lembrava estarem na minha classe, caminhando com cara de despreocupados. Já estava meio cansado de ficar falando sozinho, e não tinha absolutamente nada pra fazer em casa, de forma que tentei fazer amizade com os caras:
- Olá, ustedes estan en mi classe de alemán?
- Hola! si.
- Bueno, estou buscando alguén para tomar una cerveza, vamos?
- Si claro, soy Javi - disse o cabeludo mais baixinho,
- Hola, soy Felix - completou o mais alto.
E assim, nesse portunhol cueca-cuela, conheci alguns dos que viriam a ser meus melhores amigos por aqui. No mesmo dia combinamos de ir na manhã seguinte (um sábado) para Heidelberg, uma cidade vizinha que se dizia ser muito bonita.

A bela Heidelberg

No sabado fomos os três pra Heildelberg de S-Bahn mesmo (o das duas cidades é interligado), o que nos tomou uns 50 minutos para ir e outros 50 para voltar.

Não me lembro exatamente se tivemos muitos problemas para nos entender, mas lembro que tive que explicar que "gracioso" (= engraçado em espanhol) em português tem um sentido afeminado "las bailarinas son graciosas" dizia eu. Lembro também que terminamos o belo dia discutindo filosofia. Em portunhol é claro.

Monday, September 29, 2003


Mannheim 


Engraçada a sensação de se chegar pela primeira vez em uma cidade onde vc sabe que vai passar um período longo. É um pouco como mergulhar no mar (ai que saudades..). Para quem mergulha é uma avalanche de sensações, o frio da água, o gosto salgado do oceano, a areia sobre os pés, as ondas te levando de um lado para o outro, mas para o mar mal é notada a insignificante perturbação que vc causa ao entrar.

Mannheim continuava com seus ciclistas e bondinhos circulando (chamados Strassenbahn, Strasse=rua, bahn=caminho, trilho) mesmo depois do cansativo final da saga das malas, quando, após terem vindo de Paris de carro, as malas foram desfeitas e redistribuidas no Hotel onde ficamos, até que meu quarto na moradia estudantil estivesse liberado, e dali para o quarto transferidas em 4 viagens de uns 800m a pé.

Conheci a tal Yolanda Mateos, uma espanhola que seria nossa professora de alemão (!?), me explicando num português hesitante os procedimentos burocráticos que eu teria que passar. Ainda me restavam alguns dias até o início das aulas, a princípio somente de alemão, até lá teria que enfrentar a temida burocracia alemã.

Me virei como pude com meu alemão tosco, e graças ao dicionário de bolso PONS, consegui preencher todas as fichas necessárias. Apesar de saber que a maioria das pessoas falavam inglês, já havia metido na cabeça que esqueceria o inglês se fosse preciso, mas que aprenderia o tal do alemão, assim lá fui eu usando a manjada tática de dizer "Ja" (sim) pra tudo que não entenda. É mais ou menos assim:

- Ihren Name? (seu nome?)
- Mittermayer (essa eu entendi)
- Sind Sie ein Student? (estudante? sou!)
- Ja
- Glauben Sie, dass der Krieg nicht Schuld der USA ist? (comé qui é o negócio?)
- Ja (na dúvida...)
- JAAAAAA??????
- Neeein!!!! nein, nein, Entschuldigung, nein... (Entschuldigung = desculpe)

E com essa regra simples, mas eficaz, se pode sair das maiores enrascadas em um país de língua estranha.

Friday, September 26, 2003


A saga das malas e algumas horas em Zurique 

Ainda no Brasil, ao fazer minhas malas, eu tinha lá os limites de bagagem devidamente aferidos por uma precisíssima balança de banheiro. Os limites eram duas malas de 35kg, mais a bagagem de mão, o que parece ser mais do que o suficiente, a nao ser que vc queira levar uma biblioteca e um armário junto, como eu fiz. :) Assim, não foi tão fácil assim conseguir socar tudo dentro de duas malas, mesmo com uma imprescindível mala de sacoleiro da 25 de março, que se expande a tamanhos só críveis se vistos. Não esquecendo que para se viver 2 anos em um país, era imprescindível levar a Dulcinéa, minha viola e musa inspiradora a là Dom Quixote.

Então só por aí já se pode imaginar a cena tragi-cômica de um carinha chegando no aeroporto com 70kgs em mala, um mochilão, um violão e (eu já mencionei?) o aparelho de som portátil. Qual a dúvida? É óbvio que eu estava todalmente excedido em peso, sem contar que a super balança de banheiro tabajara me enganara em muito nos pesos. Resultado, eu o Otto, as malas, mochilão violão e aparelho de som no balcão da Swissair, primeira mala, 37 kgs:

- excesso, vamos ver a outra...38kgs. Sinto muito amigo, será que vc não pode tirar nada?
- hmmm vamos ver... Ok, Dostoiévski e um par de sapatos para o mochilão.
- Ok, 35kg, vou deixar passar a de 37, vamos agora pesar a bagagem de mão
- ahn!? tem limite também?
- Tem, são 10 kg...hmm vamos ver.. a sua tem 15. Vc está de mudança?
- É, estou, vou pra dois anos
- *suspiro* beleza vai, eu já passei por isso.. mas o violão e o som nem pensar..

E toca o Otto levar a Dulcinea (snif) e o som de volta.

Mas a saga das malas não para por aí... chegando em Paris, aeoroporto Charles DeGaulle, provavelmente um dos maiores do mundo, não tem um puto de um carrinho para carregar as malas. É que o sistema estava tão mal feito neste setor do aeroporto que as pessoas tinham que sair fora da área restrita, pegar o carrinho que algum mané tivesse largado lá fora e voltar pra pegar as malas, uma zorra, sem contar que nesta bagunça, qualquer um podia entrar e pegar as malas que quisesse. Primeiro mundo, baby.

Antes disso eu já tinha feito uma escala de 5 horas em zurique, sabe como é, passagem em promoção. As malas haviam sido despachadas direto pra paris (ainda bem!) e eu tinha 5 horas pra enrolar no aeroporto ou... quem sabe... por que não? Estava sentado em um dos sofazinhos do aeroporto de zurique, matutando planos malignos quando olho pro lado e vejo um indiano com cara de "saco, tenho que esperar um p. tempo até a m. do meu vôo", aí puxo assunto, "hey, do you speak english?" - pergunta estúpida, todo indiano fala inglês - "yes", e alguns minutos depois eu e esse louco que conheci no aeroporto estavamos caminhando pelas ruas de zurique. O vôo dele partia em 3 horas, então após uma caminhada rápida pelo centro histórico, conversando sobre Gandhi, ele teve que ir, e eu ia andar mais um pouco sozinho.

Cidade chata essa, eu alí ansioso por treinar o meu alemão do Goethe, perguntando qualquer idiotice pra qualquer um em alemão, e os caras me respondiam em ingles, "Bitte, wie spät ist es?", "four o'clock". Como é que eles conseguem em uma frase tão curta notar que eu não ia entender a resposta?

Agora o cúmulo foi quando um mendigo (sim, existe mendigo na suíça) com uma jaquela legal pra caramba veio me pedir uns trocados. Como eu não entendi nada, ele repetiu em alemão a mesma frase e, ficando óbvio que eu não falava nada de alemão, ele apelou, "do you speak english?", eu fiz que sim, "could you give me some change?", em inglês perfeito. Primeiro mundo, baby.

Tuesday, September 23, 2003


A partida e férias em Paris 

Sim, eu ia pra alemanha. A princípio demorou um pouco para entender o que isso significava. Afinal, eu continuava com a mesma rotina, acordando cedo, enfrentando o engarrafamento diá¡rio de São Paulo, trabalhando no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas. É bem verdade que alguns preparativos já precisavam começar a ser feitos, e que meus amigos já me olhavam com ares de despedida, mas a verdade é que tudo ainda me parecia muito incerto e distante que me era muito difícil assimilar a idéia de que dentro de alguns meses eu estaria vivendo e pensando em um país, lí­ngua e cultura estranhos.

Por outro lado, não aguentava mais isto, meu trabalho, que já há algum tempo me incomodava, passou a ficar cada dia mais insuportável, pois como se pode imaginar eu estava muito mais preocupado e interessado em tudo que iria mudar na minha vida, tudo que eu iria viver dali a alguns meses. Tanto que, mesmo as aulas se iniciando somente no iní­cio de outubro, cheguei a cogitar ir para a europa já em julho, tamanha minha vontade de me ver livre daquilo. Mas a prudência e os amigos (antecipando a maior de todas as dificuldades), me fizeram ficar em Sampa até o final de agosto, com tempo para comemorar meu aniversário-despedida.

Das despedidas não gosto nem de lembrar. Caramba, como me fazem falta os amigos! Foram inúmeras despedidas, algumas na balada, algumas mais individuais, outras um simples telefonema, mas todas impossíveis de se esquecer.

No momento em que entrei no avião senti aquele frio na barriga, aquele nó na garganta, aquela dúvida de estar fazendo ou não a coisa certa. Mas sabia, no fundo, que o momento e a hora é esta.


Chegando na europa, o plano era ficar na casa de meus pais em Paris até o início das aulas, o que me dava...um mês de férias em Paris!! Sensacional, visitei e revisitei tudo em Paris que sempre quis conhecer, indo desde os lugares básicos, tipo torre, arco museus, até os mais improváveis como visitar a lápide do Jim Morrison, sem mencionar o circuito arquitetônico recomendado pela Si, ou o garimpo do mini-circuito Amélie Poulin.

Paris é realmente uma daquelas cidades onde parece que tudo aconteceu e acontece, cada esquina tem sua história, neste café sentavam Sartre e Simone de Beuvoir, nesta casa morou Tolstoi, aqui foi guilhotinado Luis XV, pra quem tem tempo (como eu tinha) e gosta de história, artes e literatura (como eu) é de se ficar olho-e-boquiaberto o tempo todo.

Quando achei que já tinha visto tudo, e que a coisa estava perdendo um pouco a graça, chegaram para passar uns dias a Rê e a Ana, e lá fui eu, desta vez como guia, acompanhando-as por Paris. Será que tem algo mais inesquecível que aquele pôr-do-sol do alto da torre?

Mas as férias iam acabar, dentro em breve me mudaria para mannheim, onde a história de fato começa.

Monday, September 22, 2003


Praia do Tenório, onde tudo começou 


Me lembro como se fosse hoje quando, numa tarde ensolarada na praia do Tenório em Ubatuba, meu pai convocou uma reunião familiar. Entre um gole e outro de cerveja, brincando com os pés na areia enquanto falava, ele disse que já estava tudo encaminhado para que ele e minha mãe mudassem para Paris, meu pai sendo transferido para o escritório europeu da Embraer.

Desde que eu comparei meu trabalho com o de alguns amigos que estavam fazendo mestrado nos EUA (os grandes Karin e Luis), fiquei com aquilo minhocando na cabeça, discutindo com outros amigos que faziam mestrado no Brasil (como o grande Fabiano!) e embrionando a idéia. Em suma, eu já cultivava esta vontade de estudar fora, fazer um mestrado, aprender uma nova língua há algum tempo, mas foi neste momento, quando meu pai perguntou, "e aí, vcs acham uma boa? e como vcs ficam aqui no brasil?" que eu realmente decidi que iria estudar no exterior. Na mesma hora já declarei em tom solene, "não se preocupem comigo, eu tb estou indo".

A partir daí (isto aconteceu no final do ano 2001), foram alguns meses de escafuncho e orelhas em pé. Sites de emprego, feiras em SP, sites de universidades, tudo que tivesse a palavra "europa" eu estava lendo, indo e me inscrevendo. Aos poucos algumas oportunidades começaram a aparecer. Muito graças ao Prof. Adnei, que coordena as relações exteriores da Poli, fui aos poucos sabendo de uma faculdade na suécia, outra na alemanha, outra na frança... e atirando para todos os lados.

Algumas barreiras foram surgindo e diminuindo as possibilidades, como as faculdades da frança que, além de não oferecerem bolsas, exigiam francês fluente, ou outras que eram uma fortuna. Dentre as viáveis e interessantes sobraram duas possibilidades, uma em uma universidade na suécia, em Gotemburgo e outra na alemanha, em Mannheim.

A da Suécia parecia mais interessante, além do curso ser em inglês, seria dado a todos a oportunidade de trabalhar como docente na faculdade após a conclusão do curso (que era tudo que eu queria!). O curso era gratuíto e existia a possibilidade de se conseguir uma bolsa de estudo para países em desenvolvimento. Eu estava um pouco inseguro em relação à alemanha, pois o curso parecia ter um foco em telecomunicações, e não em computação como eu queria, além disto, apesar de ser dado um curso de alemão, era exigido um conhecimento básico (que eu já nao tinha). Apesar disto, o da alemanha tinha a bolsa da Siemens garantida.

Entrei no processo das duas. A da suécia exigia um quilo de documentos, com cartas de recomendação (que peguei com alguns dos melhores e mais legais professores da época de Poli), ementa do curso de engenharia e muitos outros, tudo em inglês ou com tradução juramentada. O curso da alemanha tinha um processo seletivo no Brasil com a Siemens, com entrevistas e um famigerado teste de alemão. Resultado, depois de R$2500,00 de tradução juramentada e uma prova humilhante de alemão, apostei todas as fichas em Gotemburgo.

Qual não seria minha surpresa alguns meses depois quando após ter recebido um não duplo de Gotemburgo (ainda faltava muuuito para pagar da tradução parcelada) recebo um e-mail de uma tal Yolanda Mateos, se fazendo entender em português e dizendo estar iniciando meu processo de matrícula. Que vontade de sair gritando pulando corda no fio do telefone igual à gordinha daquela propaganda antiga da loteria.. CARAMBA! eu vou mesmo pra alemanha!!!!

Nisto me liga o Fabiano e recebe a notícia de primeira mão, "estou indo! acabo de receber o e-mail! almoçamos juntos pra comemorar?" e almoçamos. Eu alí, com um sentimento de estar sonhando, entre a euforia e desconfiança, e ele só me dando força e feliz por eu estar seguindo o caminho que tanto discutimos.

Friday, September 19, 2003


Prefácio 

É sempre meio estranho começar. Aquela sensação de que vc vai escrever algo que poucos vão se interessar, ou que muitos não vão gostar, ou simplesmente o medo natural de se expor para pessoas possivelmente desconhecidas. Mas, como diria o filósofo, quando tudo parece estar à beira do abismo, é preciso ter coragem e dar um passo adiante. ;)

Ao contrário do *.*, este blog seguirá mais a definição e propósito dos blogs, o de ser uma espécie de diário virtual, o que, além de contar as histórias vividas nestes dois anos de alemanha, me faz me sentir mais próximo da adolecência e menos perto da barreira psicológica (pqp!) dos 30.

O que não será possível é seguir uma ordem cronológica exata, pelo simples fato de que o blog começa a ser escrito quase um ano depois de minha partida, e desta forma, vou começar fazendo algumas regressões entremeadas provavelmente por histórias presentes.

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