Amsterdam
Depois de alguns finais de semana totalmente sozinho no fim do mundo foi muito fácil decidir o que fazer do salário do estágio que eu estava fazendo em Bocholt - fugir de lá.
Lá pela quarta semana de um estágio de 3 meses, eu já tinha todos os outros fins de semanas planejados com viagens, passagens e estadias reservados. Amsterdam, Londres, Sevilha, um de volta a Mannheim - era a hora de aproveitar o finzinho do verão e a boa reputação que tinha conseguido para emendar algumas segundas e sextas e conhecer cidades européias que sempre quis conhecer.
A primeira delas, pela distância (Bocholt fica a uns 20km da fronteira com a Holanda) seria Amsterdam. O irônico é que após esta primeira fase de isolamento, justamente agora que eu estava decidido a viajar, começavam a chegar outros estudantes na Siemens, que poderiam tornar menos monótonos os fins de semana Bocholtianos.
Mas agora era tarde, eu já tinha definido meus fins de semanas nômades e nada me impediria de fazê-lo. Tentei até convidar um amigo tailandês, mas acho que ele ainda não estava convencido da chatisse do vilarejo e não quis me acompanhar. Eu já tinha perguntado para várias pessoas e ir para Amsterdam era muito simples. Era preciso tomar um ônibus até a primeira cidade da Holanda e de lá tomar um trem para a Capital deste pequeno país.
Fiz conforme o planejado e fora os problemas habituais de se entender o sitema de passagens de um novo país, os destinos que eu tinha que seguir e o mau humor padronizado dos vendedores de bilhete ("eu falo inglês, por que você não aprende holandês?"), a ida a amsterdam foi relativamente tranquila (e solitária).
A primeira impressão de Amsterdam é bem interessante, a cidade é bem bonita com seus canais entrecortando a cidades, e se não fossem os turistas que infestam a cidade, tem-se a impressão de estar em alguma vila hippie dos anos 60. Aparentemente tudo aqui está ligado à arte de rua ou ao consumo de drogas. Outros simbolos onipresentes são as tulipas, os moinhos de vento e Van Gogh.
Eu ainda não tinha hotel reservado em Amsterdam, mas estava certo que conseguiria algo em conta para uma pessoa por uma noite. Fui caminhando em direção ao centro da cidade quando meu caminho foi interrompido por um desfile de carros alegóricos. Não, eu não havia experimentado os doces venenos da cidade, até porque tenho certeza que nem nas maiores viagens lisergicas eu seria capaz de produzir a cena ridícula de um carro alegórico com cores brasileiras com uma "mulata" com fantasia de carnaval calçando tenis e muito menos o cabeludo com cara de roqueiro num samba-do-crioulo doido que ninguém merecia.
Segui então a uma região onde havia alguns albergues. Era uma rua bastante menos glamurosa que as entrecortadas por canais que eu havia visto, mas depois de alguma procura perambulando pela cidade encontrei uma cama que ficava em cima de um Pub Irlandês. Você fazia o check-in no balcão do bar, e entre uma cerveja e um sanduíche a mocinha me pediu meus documentos em um carregado sotaque irlandês.
Para subir para os quartos eu tinha que passar para o outro lado do balcão e passar por uma escada em espiral que não passaria em nenhuma inspeção de segurança. O quarto era um quarto comum com camas que me lembraram as do campo de concentração de Dachau, o que completava o ar de clandestinidade do local.
No quarto comum, alguns espanhois fumavam um baseado embaixo da placa de "Proibido usar drogas" e um chileno e sua esposa francesa dividiam a beliche vizinha à minha. Como estavam dormindo, decidi sair para dar uma volta.
Voltei ao centro e dei algumas voltas por lá, e ao voltar para o "hotel", talvez pelas luzes que agora estavam acesas com a luz do dia escasseando foi que notei que eu estava no Red Light District, o reduto gay e de prostituição de Amsterdam.
Lá pela quarta semana de um estágio de 3 meses, eu já tinha todos os outros fins de semanas planejados com viagens, passagens e estadias reservados. Amsterdam, Londres, Sevilha, um de volta a Mannheim - era a hora de aproveitar o finzinho do verão e a boa reputação que tinha conseguido para emendar algumas segundas e sextas e conhecer cidades européias que sempre quis conhecer.
A primeira delas, pela distância (Bocholt fica a uns 20km da fronteira com a Holanda) seria Amsterdam. O irônico é que após esta primeira fase de isolamento, justamente agora que eu estava decidido a viajar, começavam a chegar outros estudantes na Siemens, que poderiam tornar menos monótonos os fins de semana Bocholtianos.
Mas agora era tarde, eu já tinha definido meus fins de semanas nômades e nada me impediria de fazê-lo. Tentei até convidar um amigo tailandês, mas acho que ele ainda não estava convencido da chatisse do vilarejo e não quis me acompanhar. Eu já tinha perguntado para várias pessoas e ir para Amsterdam era muito simples. Era preciso tomar um ônibus até a primeira cidade da Holanda e de lá tomar um trem para a Capital deste pequeno país.
Fiz conforme o planejado e fora os problemas habituais de se entender o sitema de passagens de um novo país, os destinos que eu tinha que seguir e o mau humor padronizado dos vendedores de bilhete ("eu falo inglês, por que você não aprende holandês?"), a ida a amsterdam foi relativamente tranquila (e solitária).
A primeira impressão de Amsterdam é bem interessante, a cidade é bem bonita com seus canais entrecortando a cidades, e se não fossem os turistas que infestam a cidade, tem-se a impressão de estar em alguma vila hippie dos anos 60. Aparentemente tudo aqui está ligado à arte de rua ou ao consumo de drogas. Outros simbolos onipresentes são as tulipas, os moinhos de vento e Van Gogh.
Eu ainda não tinha hotel reservado em Amsterdam, mas estava certo que conseguiria algo em conta para uma pessoa por uma noite. Fui caminhando em direção ao centro da cidade quando meu caminho foi interrompido por um desfile de carros alegóricos. Não, eu não havia experimentado os doces venenos da cidade, até porque tenho certeza que nem nas maiores viagens lisergicas eu seria capaz de produzir a cena ridícula de um carro alegórico com cores brasileiras com uma "mulata" com fantasia de carnaval calçando tenis e muito menos o cabeludo com cara de roqueiro num samba-do-crioulo doido que ninguém merecia.
Segui então a uma região onde havia alguns albergues. Era uma rua bastante menos glamurosa que as entrecortadas por canais que eu havia visto, mas depois de alguma procura perambulando pela cidade encontrei uma cama que ficava em cima de um Pub Irlandês. Você fazia o check-in no balcão do bar, e entre uma cerveja e um sanduíche a mocinha me pediu meus documentos em um carregado sotaque irlandês.
Para subir para os quartos eu tinha que passar para o outro lado do balcão e passar por uma escada em espiral que não passaria em nenhuma inspeção de segurança. O quarto era um quarto comum com camas que me lembraram as do campo de concentração de Dachau, o que completava o ar de clandestinidade do local.
No quarto comum, alguns espanhois fumavam um baseado embaixo da placa de "Proibido usar drogas" e um chileno e sua esposa francesa dividiam a beliche vizinha à minha. Como estavam dormindo, decidi sair para dar uma volta.
Voltei ao centro e dei algumas voltas por lá, e ao voltar para o "hotel", talvez pelas luzes que agora estavam acesas com a luz do dia escasseando foi que notei que eu estava no Red Light District, o reduto gay e de prostituição de Amsterdam.
Monday, January 17, 2005
Bocholt, o fim do mundo mais pra lá.
Ainda mais em um país com tanta escassez de sol como a Alemanha, o verão é a estação do ano mais esperada. É realmente uma beleza ver os jovens se reunindo pra jogar bocha ou fazer churrasco nos parques da cidade. As pessoas aproveitam pra tirar o mofo daquela roupa de verão e as mulheres pra exibirem suas exuberantes cabeleiras embaixo dos braços.
É também nesta época que os alemães aproveitam pra viajar para os destinos mais longe da Alemanha possível. Tenho até uma teoria de que os alemães são a versão loira dos japoneses, com suas câmeras de última geração, andando em comboios guiados, com a diferença que os alemães estão sempre acompanhados de suas cervejas. A ilha espanhola Mallorca é o destino preferido, de forma que os espanhóis, que em geral não são exatamente nacionalistas, já a consideram território alemão.
Mas nenhum desses prazeres me esperava. Depois de uma longa novela pela burocracia alemã que me fez lembrar do Processo de Kafka, consegui o direito de passar meus 3 meses de férias em um laboratório de pesquisas da Siemens num vilarejo nos confins da Renânia do Norte-Vestfália. Onde? Pois é, a "Renânia do Norte-Vestfália" ou Nordrhein-Westfall é um estado da Alemanha e eu estava indo fazer um estágio em um laboratório da Siemens em Bocholt, uma cidadezinha de 50 mil habitantes quase na fronteira com a Holanda.
A cena da mudança não era nova, e se repetiria algumas tantas vezes. Estudante estrangeiro, cheio de malas dentro do trem mais barato e suando feito um porco pra levar tudo de uma plataforma pra outra.
Encontrar um lugar para morar em Bocholt também não era uma tarefa exatamente simples, mas pelo menos a Siemens conseguiu um albergue com um preço razoável para os primeiros 15 dias de minha chegada. Nesse meio tempo eu poderia encontrar algum lugar para os dois meses e meio seguintes. Lá a sensação de isolação não poderia ser maior. Sem internet, sem cozinha, sem mais ninguém no hotel, tudo que me restava era passear pela cidade. Isso, se eu fosse devagar, me tomava uma hora, o que me deixava outras 23 para ler, pensar e olhar o telhado com catavento que era a vista da minha janela.
O principal meio de transporte da cidade é a bicicleta e o único cinema da cidade (que atraia gente de toda a região) tinha quatro salas com filmes mainstream que foram vistos na primeira semana.
Como vcs podem ver, um longo periodo de retiro espiritual forçado se iniciava e, se não fosse por algumas decisões que tomei, assim teria sido o tempo todo. Na foto ao lado, a rua principal da "cidade".
Saturday, October 02, 2004
empurrando com a barriga
Sim eu sei, caros amigos, ja faz um mes que nao atualizo o blog.. Mas muitas coisas aconteceram. Foi defesa de tese, mudanca, remudanca e estudo para a prova-mais-importante-do-mundo.
"Vou escrever algo de util agora? Olha, nao vou mentir pro senhor..."
Mas prometo que a partir da semana que vem vai chegar um carregamento de posts. Eu ainda acredito que vou conseguir alcancar o tempo todo perdido e contar todas as historias que quero contar.
Bom entao ate semana que vem.. (marquem ai, 1o. de outubro...)
"Vou escrever algo de util agora? Olha, nao vou mentir pro senhor..."
Mas prometo que a partir da semana que vem vai chegar um carregamento de posts. Eu ainda acredito que vou conseguir alcancar o tempo todo perdido e contar todas as historias que quero contar.
Bom entao ate semana que vem.. (marquem ai, 1o. de outubro...)
Tuesday, September 21, 2004
Descobrindo o Amor no Churrasco
Na semana seguinte, aproveitando a vinda da Nat, decidimos fazer algo que já planejavamos há tempos -- churrasco em Heidelberg.
Nos juntamos Edras e Verô, Javi, Natcho, Nat e Eu (esqueci alguém?), com tudo na mochila e lá fomos nós subir o Philosophenweg. O "Caminho dos Filósofos" é uma trilhazinha super arborizada com uma vista espetacular para o vale onde fica Heidelberg, e onde segundo as lendas, muito da filosofia de Hegel foi sintetizada (se me permitem a brincadeira hehehe).
O caminho era estonteante e o dia estava lindo. Depois de uma meia hora subindo encontramos uma clareira que seria palco de nosso churras. O Edras sacou sua inacreditável churrasqueira de bolso (putz, uns 20 cm por 10cm), nós sacamos as carnes, o cobertor pra deitar na grama, o frisbee e começou o show de horror.
Fazer churrasco na alemanha me fez perceber que o grande barato do churrasco não está em comer carne (afinal, aqui ela é invariavelmente de porco ou salsichões), mas sim no evento todo que se monta ao redor, é a reunião de amigos, o falar besteira, as risadas, etc.
Mas falando em falar besteira, em determinado momento a Verô, estando já com fome, pede para seu namorado, o Edras, "Amor, me dá um pedaço de carne?". O Javi, que estava mais perto, sem entender muito bem o português achou que fosse com ele e prontamente lhe serviu um apetitoso pedaço de carne para ser passado na farofa importada do Brasil.
Ora, o Edras notou o que tinha acontecido e tratou de deixar as coisas claras, como gostam de fazer engenheiros churrasqueiros, "ô Javi, o 'Amor' aqui sou Eu!". O sevilhano, malaquíssimo como só, emendou sem pensar um "Tá bom amor!" em ótimo portunhol para delírio da torcida. E assim para o resto da tarde, o Edras virou o amor de todo mundo, no bom sentido, como sempre. ;)
Sunday, August 22, 2004
Mulheres brasileiras
A Clau estava na mesma loucura que eu, só que em Londres. Como a maioria das histórias de quem se aventura a viver no exterior, ela tinha ralado e corrido muito atrás dessa chance e estava felicíssima vivendo em Londres há alguns meses.
Sua irmã, a Vivi, tinha vindo pra visitá-la e as duas abandonaram a ilha pra descobrir o continente com uma mochila nas costas e uma camera na mão. Passaram por um monte de cidades até chegar na Alemanha, onde obviamente se apertaram no meu quarto em Mannheim. :)
Eu já tinha programado uma visita a Heidelberg como não poderia deixar de ser, mas elas acabaram dando muita sorte de estarem em Mannheim num sábado de festa de Wohnheim. Os Wohnheime (a moradias) organizam normalmente uma festa grande por semestre, e são as melhores festas, pois são de graça ou muito baratas e todos os estudantes de todas as moradias vão a elas. A cerveja é quente mas a diversão é muita.
Tudo legal, fui buscá-las na estação e logo depois de acomodadas, já começaram os preparativos.. Macarrão do mestre Javi, vinho, e fomos pra festa.
É engraçadíssimo ver o poder das mulheres brasileiras sobre os homens do resto do mundo. Acho que talvez seja a alegria, a facilidade de rir que elas têm, ou quem sabe o jeito de olhar, ou ainda todas aquelas coisas intraduzíveis que nós homens percebemos e que elas fingem não perceber que estão fazendo.
O fato é que a festa foi um alvoroço. Acho que talvez eu tenha batido o record de apresentar amigos por segundo. Foi uma insanidade, todos os latinos que nunca se interessaram pelo português agora mandavam aquele portunhol intimidante, "Yo falo português, como te llamas?"
Mas, como não poderia deixar de ser, não aconteceu nada. Por mais um desses mistérios que nós homens nunca vamos entender, as mulheres quando extremamente assediadas se mantém absolutamente calmas e senhoras da situação (para desespero dos homens), e assim, mais uma vez, latinos, espanhois, ingleses e alemães cairam aos pés da mulher brasileira. "..pois a minha grande vitória e conseguir botar uma mulher brasileira na minha vida...", sábias palavras mestre Jorge Ben, sábias palavras.
Ah, já ia esquecendo, a gente foi sim pra Heidelberg no dia seguinte, foi demais, mas nada que se compare...
Sua irmã, a Vivi, tinha vindo pra visitá-la e as duas abandonaram a ilha pra descobrir o continente com uma mochila nas costas e uma camera na mão. Passaram por um monte de cidades até chegar na Alemanha, onde obviamente se apertaram no meu quarto em Mannheim. :)
Eu já tinha programado uma visita a Heidelberg como não poderia deixar de ser, mas elas acabaram dando muita sorte de estarem em Mannheim num sábado de festa de Wohnheim. Os Wohnheime (a moradias) organizam normalmente uma festa grande por semestre, e são as melhores festas, pois são de graça ou muito baratas e todos os estudantes de todas as moradias vão a elas. A cerveja é quente mas a diversão é muita.
Tudo legal, fui buscá-las na estação e logo depois de acomodadas, já começaram os preparativos.. Macarrão do mestre Javi, vinho, e fomos pra festa.
É engraçadíssimo ver o poder das mulheres brasileiras sobre os homens do resto do mundo. Acho que talvez seja a alegria, a facilidade de rir que elas têm, ou quem sabe o jeito de olhar, ou ainda todas aquelas coisas intraduzíveis que nós homens percebemos e que elas fingem não perceber que estão fazendo.
O fato é que a festa foi um alvoroço. Acho que talvez eu tenha batido o record de apresentar amigos por segundo. Foi uma insanidade, todos os latinos que nunca se interessaram pelo português agora mandavam aquele portunhol intimidante, "Yo falo português, como te llamas?"
Mas, como não poderia deixar de ser, não aconteceu nada. Por mais um desses mistérios que nós homens nunca vamos entender, as mulheres quando extremamente assediadas se mantém absolutamente calmas e senhoras da situação (para desespero dos homens), e assim, mais uma vez, latinos, espanhois, ingleses e alemães cairam aos pés da mulher brasileira. "..pois a minha grande vitória e conseguir botar uma mulher brasileira na minha vida...", sábias palavras mestre Jorge Ben, sábias palavras.
Ah, já ia esquecendo, a gente foi sim pra Heidelberg no dia seguinte, foi demais, mas nada que se compare...
Wednesday, July 28, 2004
Crime e Castigo
Venho aqui fazer uma confissão pública. Eu cometi um crime. É verdade, saí na calada da noite premeditadamente levando comigo uma chave de fenda. Ao me aproximar da vítima, sorrateiramente desparafusei o suporte e saquei o belíssimo cartaz do show do David Bowie (esse mesmo aí do lado) que há semanas me tentava bem na porta de casa.
A única coisa que me ameniza minha culpa é que na manhã seguinte havia um novo cartaz de propaganda de cigarros, não só desonrando o suporte outrora tão bem acompanhado, como sinalizando que meu poster teria sido prontamente reciclado.
Cheguei em casa com um sorriso de prazer, fiz questão de ressaltar pro Bruno como a foto do Bowie tinha tudo de Rock n' Roll, mudando o pedal da guitarra com o pé, uma mão no braço da guitarra, a outra no microfone, na mesma que segurava a palheta na ponta dos dedos.
Depois deste breve momento de euforia, como um padre que se pega olhando pras pernas das garotas, engoli o sorriso, enrolei o cartaz e coloquei ele junto com o mapa de Berlim, o poster do Pulp Fiction, do Dogville, do cidade de Deus. Tive que enrolá-lo um pouco mais apertado para entrar dentro do do Bob Marley. Depois coloquei todos enrolados um dentro do outro de volta no saco plástico, lacrei a ponta e os mergulhei mais uma vez no canudo dos pôsteres.
Vida no exterior é assim. Tudo é pra depois, e o que é pra agora é tão temporário, que não vale a pena se apegar afetivamente. Sua casa é temporaria, a língua que você fala é temporária, seu emprego, sua conta no banco, seu número de telefone, seus amigos, tudo e todos temporários. Ok, depois você pode falar com seus amigos pelo messenger, ou em alguma ocasião muito especial receber ou fazer uma visita. Mas nunca mais será aquele seu camarada que passa junto por apuros, que cuida ou é cuidado de/por você quando está bêbado, que divide o muquifo naquela viagem pros confins da europa.
Certamente se aprende muita coisa vivendo assim, seja o de dar menos valor aos bens materiais (no semestre seguinte você não vai conseguir carregar tudo pro seu novo quarto, e acaba largando aquela luminária pra trás...), seja o de aproveitar cada minuto, de quebrar preconceitos, de viver os amigos e as situações mais intensamente.
Por outro lado, não tenha dúvida de que depois de um tempo, tudo que você quer é um prato de arroz e feijão e tomar uma Skol naquele buteco com mesa de metal. Você quer seus amigos, sua familia, quer realizar seus planos, enfim, você quer pendurar o
poster do David Bowie no seu quarto.
***
Muito bem, eu tive que contar toda essa história pra tentar explicar a alegria que é receber amigos quando se está tanto tempo fora de casa. No próximo post, a visita da Vivi e da Clau e (uma semana depois) da Nat.
Wednesday, June 23, 2004
Meu nome é Günther, Guinter, Guinta e Guenther
Pois é, mas diferente do trema em português que é somente mais um acento, as letras com umlaut em alemão são consideradas quase que como letras distintas (até por que alemão não tem acento). Pra dificultar, essas novas letras estranhamente tendem a ter o som mais aproximado de outra vogal que não a "umlauteada".
Ou seja, o "ü" tem o som mais parecido ao "i" do que ao "u". Por isso é que aquele jogador de futebol chamava "miler" mas escrevia "müller" (o que eu nunca entendi é o porquê deste apelido, já que o cara chama Luiz Antonio).
Da mesma forma o "ö" e o "ä" têm sons distintos do "o" e do "a", ambas tendo o som aproximado ao "e". Assim se diferencia schön com trema (=bonito) de schon sem trema (=já) sendo pronunciados aproximadamente como "chen" e "chon".
Você já deve estar percebendo onde eu quero chegar. É isso mesmo, falo sem vergonha, depois de 25 anos convivendo com meu nome vim descobrir que nunca soube pronunciá-lo corretamente. A pronúncia correta é inescrevível em português, mas o mais perto que se chega é um "Guintar".
Pois é, mas em alemão se escreve mesmo é "Günther", e como vcs podem imaginar, existem muitas situações em que nao se consegue representar os üs, äs e ös, fazendo-se necessária uma outra representação para elas.
A forma adotada foi adicionar um "e" ao lado da vogal com trema, ou seja "müller" ficaria "mueller", as toalhas dos intervalos dos trapalhões, as "büttner" ficam "buettner", e claro, Günther vira Guenther.
Pronto, solucionado o mistério do "e" que invadiu meu endereco de e-mail desde que eu cheguei na alemanha. Não é numerologia nem feitiçaria, é tecnologia ;)
Monday, May 31, 2004
Munique e o Neuschwansteinschloß

Acho que as pessoas têm três estereótipos possíveis da Alemanha. O primeiro é o dos businessmen, pessoas cosmopolitas, rígidas com as regras, extremamente pontuais e frias. Acho que este estereótipo tem mais a cara de Frankfurt, a Mannhatan alemã. O segundo eh o ligado à história, muro de Berlim, Comunismo, Nazismo, etc., obviamente ligados a Berlim. E o terceiro é o daquele barrigudo com o caneco de cerveja na mão, o símbolo da Oktoberfest de Blumenau. Aí estamos falando certamente de Munique.
Munique é a capital da bavária, o estado mais a Sudeste da Alemanha, e é a caricatura que os alemães não bávaros menos gostam de si mesmos, e a que os bávaros mais gostam. Não é em hipótese alguma estranho ir a uma reunião de trabalho na Siemens e encontrar-se um dos presentes trajando aqueles trajes típicos, aquelas bermudinhas de couro com suspensório, as Lederhosen.
Óbviamente, Munique é a capital da Cerveja, motivo pelo qual a cidade é invadida por milhões de turistas em finais de Setembro para a Oktoberfest. Isso mesmo, setembro, a Oktoberfest começa em Setembro e termina no primeiro fim de semana de Outubro. Em Munique também está a famosíssima Hofbräuhaus, a cervejaria mais tradicional da alemanha, e empresa estatal com melhor imagem do mundo (depois de alguns Maß, é claro). Mais informacoes sobre a onipresença da cerveja no post abaixo.
Meus pais tinham vindo me visitar na alemanha, e, dada a descendência austríaca de meu pai, tinha certeza que ele ia se maravilhar com a cidade. Combinamos a data e nos encontramos lá, eu vindo de Mannheim, eles de Paris. Fomos logo pro hotelzinho que eu havia reservado, e logo saímos em caminhada, indo aos pontos mais famosos, a Marienplatz e Frauenkirche. A Marienplatz é a praça central de Munique, onde estão alguns dos edifícios mais famosos, a Altesrathaus (a antiga prefeitura) e a Frauenkirche, uma igreja com duas torres gigantescas, que têm a curiosidade de aparentarem serem de tamanhos diferentes, quando na verdade -- são! Parece que o nó cego que construiu as torres fez um erro e elas tem uma diferenca de tamanho de uns 3 metros, mas que quase nao se percebe de baixo.
Mas o ponto alto mesmo de Munique esta a uma hora, na cidadezinha de Füssen, o Neuschwansteinschloß (hein?) é o "castelo da pedra no novo cisne" (eu sei, vc está rindo, mas é isto que significa, fazer o que?). O castelo mais incrível do mundo, construído no alto de uma montanha e que todo mundo ao olhar tem a impressão de que já viu esta foto em algum lugar, mas ninguém sabe onde. Talvez seja de algum quebra-cabeças, talvez seja porque ele foi a inspiração pro castelo da cinderella.
Mas o fato é que o castelo foi construído por Ludwig, um rei que teve uma misteriosa morte após ter sido afastado de suas funções por insanidade mental. Algumas más línguas afirmam que se tratou na verdade de um golpe de estado, pois o tal Ludwig só queria saber de construir castelos em homenagem a seu "amigo" Wagner, o autor de algumas das óperas mais cultuadas do mundo, em especial as "Valkírias" aquela da cena dos helicópteros no Apocalipse Now.
Mais fotos desta viagem vc encontra aqui.

